Olá, leitores do Legado das Palavras! (Resenha publicada originalmente no blog Resenhas de Uma Leitora).
Existe um ditado que
diz: “Filho de peixe, peixinho Ă©”. Baseado nisso, podemos concluir que muitos
filhos seguem a mesma carreira do pai, alguns obtĂŞm mais sucesso outros menos,
no entanto, nĂŁo Ă© isso o que importa. Neste caso, finalmente tive coragem de
tirar o livro O Pacto da prateleira
e ler, o autor talvez ainda seja pouco conhecido, seu pseudônimo é Joe Hill e seu nome é Joe Hillstrom King. Ele não é ninguém
menos que filho de um dos maiores escritores de todos os tempos: Stephen King, o mestre do terror e
suspense.
Particularmente, achei
uma Ăłtima ideia Joe Hill nĂŁo ter usado o sobrenome do pai e querer caminhar com
suas próprias pernas. Contudo, é inegável o dom que Hill possui para a escrita,
O Pacto, lançado originalmente em
2010 e publicado neste mesmo ano no Brasil pela editora Sextante, Ă© uma das obras mais reflexivas que li nos Ăşltimos meses.
O protagonista,
Ignatius Perrish – ou simplesmente Ig –, possuĂa uma famĂlia unida e feliz,
além de ter encontrado o grande amor de sua vida, ainda na adolescência, Merrin
Williams. Contudo, no último sua vida mudara completamente de direção, após o
brutal assassinato de Merrin, no qual ele era o principal suspeito, apesar de
nĂŁo haver provas que o incriminassem, nĂŁo havia nenhuma que o inocentasse.
A narrativa inicia-se
em meio a esse inferno pessoal, quando Ig ao acordar, apĂłs uma noite de insana
bebedeira, percebe que um par de chifres nasceu em suas têmporas. Ao contrário
do que julgou primariamente, as pessoas nĂŁo reagem com espanto ao vĂŞ-lo, elas
sĂŁo impelidas a revelar seus maiores e mais secretos pecados. Assustado ele
descobre os horrĂveis segredos de todos a sua volta nem mesmo o padre e seus
pais estĂŁo livres de seu poder. E todos eles o odeiam. O golpe mais doloroso
vem quando ele descobre que seu irmĂŁo, tĂŁo prĂłximo e querido, sempre soube quem
era o verdadeiro assassino de Merrin e nunca lhe contou nada. Até ver os
chifres. Ig parte em uma busca desenfreada pela verdade, cada vez mais dolorosa
e solitária.
Quando as pessoas que vocĂŞ ama lhe viram as costas e sua vida se torna um inferno, ser o diabo nĂŁo Ă© tĂŁo mau assim.
Imagine as pessoas que
tanto amamos nos virarem as costas e por trás de sorrisos falsos e mentiras
secas, nutrirem sentimentos assombrosos sobre nĂłs. A obra transita entre amor e
desgraça numa escala babilônica, suas metáforas enriquecem cada vez mais a
leitura e acabam por torna-la irresistĂvel. A cada página lida e a cada
mistério solucionado, o leitor irá se sentir impelido a não abandonar o livro.
Hill escreve sobre o diabo, mas expressa muito mais os demĂ´nios que – nĂłs
humanos – podemos conter em nossos interiores.
Amor, traição,
vingança, dor, tragédia e felicidade, são explorados com ardor pelo autor. Joe
Hill emociona e faz rolar lágrimas em diversos trechos deste livro,
transmitindo mensagens importantĂssimas como perdĂŁo, amizade, confiança, entre
outras. Sua narrativa excelentemente bem construĂda nos faz refletir sobre a
maldade e os atos impensados, impulsivos, além de deixar algumas questões
retumbando em nossas mentes: Seria o homem o seu prĂłprio diabo? Ou Seria o
homem pior que o diabo?
Hill utiliza-se de uma
narrativa nĂŁo linear, ora narra o presente, ora o passado, fato essencial para
a construção de cada um dos personagens, ele os transporta desde o primeiro
contato até, bem, o último, em alguns casos. O escritor consegue com grande
ĂŞxito explicitar os sentimentos de Ig, sua dor, seus pensamentos, suas atitudes
mal pensadas. Aqui, nĂłs simpatizamos com o pobre diabo. Obviamente, pelo tema,
ele menciona e questiona em muitos trechos a fé e religiosidade, talvez, esta
nĂŁo seja a obra ideal para quem nĂŁo tem uma mente aberta e sempre disposta a
ler outros pensamentos ou para quem tem uma fé abalada e possua medo de algo
destruĂ-la.
Ou, talvez, seja ideal para estas pessoas. O
fato Ă© que o livro nĂŁo se prende a este tema, ele se importa mais com a
humanidade que com as crenças de cada um.
Joe Hill surge como um
dos mais brilhantes escritores de ficção fantástica, não é para menos, afinal, O Pacto é uma história sobre a
profundidade negra de nosso interior humano, nossos pensamentos nefastos e
atitudes grotescas. Recomendo este livro com a mesma intensidade que recomendo Sangue Quente. SĂŁo duas histĂłrias
altamente fantasiosas, mas que, através da ficção, transmitem valores e agregam
pensamentos que merecem ser levados adiante.
Leia O Pacto.
E prepare-se, uma adaptação cinematográfica foi confirmada e o protagonista será "apenas" o astro de Harry Potter, Daniel Radcliffe.
