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Legado das Palavras: Na Estante

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Estampado, na capa de O Vilarejo, novo livro de Raphael Montes, a declaração da atriz Fernanda Torres diz: “Raphael cria uma seleção de histĂłrias macabras digna dos melhores contos dos IrmĂŁos Grimm, sem deixar nada a dever a Stephen King.” Obviamente, fiquei contente por ver um autor nacional comparado ao famigerado King. Ainda que nĂŁo tivesse abraçado a causa, essas palavras me venderam o livro, e eu enfim pude ler algo do Montes, um autor em ascensĂŁo cujo nome já li bastante pela internet.
Ao contrário da declaração de capa, o livro deve algo para alcançar a melhor fase de Stephen King, sim. Por outro lado, bate de frente com algumas das obras do referido autor. No entanto, isso nĂŁo diz nada sobre a qualidade de O Vilarejo. Comparar autores Ă© sempre uma grande bobagem, e que acaba gerando bastante discussĂŁo — mas vende o livro (vendeu para mim).
Em relação aos contos que são apresentados, é um livro excelente. Terror, suspense, agonia, sangue e violência muito bem dosados e conduzidos pelo autor. Quando digo dosado, não quero dizer para menos. Não. As histórias despertaram em mim pura repulsa e estupefação, ante dos fatos narrados.
Baseado na teoria de Peter Binsfeld, padre e demonologista, lançada  em 1589, que cada pecado capital Ă© interligado a um demĂ´nio, Montes encontrou aĂ­ o guiĂŁo para a construção do livro. Cada uma das sete histĂłrias apresentadas representa um demĂ´nio/pecado capital. Elas sĂŁo interligadas pelo vilarejo e seus personagens, o que o torna mais que um livro de contos, dando para a obra a alcunha de fix up, caso tambĂ©m do King Edgar Hotel. 
No centro da histĂłria, tal vilarejo acaba isolado do restante do mundo, no vale onde Ă© situado, apĂłs o rebento de uma guerra civil no paĂ­s e a intempĂ©rie da neve. Ali os personagens passam fome e algumas outras dificuldades excruciantes, trazendo a tona aspectos brutais e monstruosos da psique humana.
Avaliando de forma geral, gostei bastante do livro. Mas tambĂ©m apreciei mais umas histĂłrias do que outras. Destaco aqui a primeira e a Ăşltima. O inĂ­cio, dado pelo prefácio (vou chegar nele), e seguido pelo conto Banquete Para Anatole, mostram o que vocĂŞ enfrentará nas prĂłximas páginas. É de revirar o estĂ´mago. O Ăşltimo, Um Homem de Muitos Nomes¸ trouxe-me, o que atĂ© entĂŁo nĂŁo havia tido na leitura, aquele momento em que parei e pensei meus sinceros parabĂ©ns, Montes. Outros dois trechos que me fizeram ter esse pensamento foram o prefácio e o posfácio. Eles sĂŁo as cerejas do bolo. DĂŁo o toque de genialidade do livro.
Completando um trabalho interessante, e até mesmo com sua singularidade na literatura nacional, há também as ilustrações produzidas por Marcelo Damm. Impecáveis e perturbadoras, na exata proporção dos contos.

O Vilarejo foi lançado nesse ano de 2015, pela Suma das Letras. A mesma casa de Stephen King. Melhor que comparar se de fato as histĂłrias de Montes devem ou nĂŁo algo em relação Ă s do King, Ă© pode ler um trabalho bonito como esse, e sentir que o terror nacional está bem representado. É uma obra curta e de leitura rápida. Como AndrĂ© Vianco disse: “...Ă© um livro para ler numa sentada sĂł...”. Concordo. O ritmo da narrativa flui e praticamente te obriga a chegar ao recompensador final. 
Esse foi o primeiro livro de Raphael Montes lido por mim. Certamente será o que indicarei, quando me perguntarem algo sobre o autor. NĂŁo Ă© sua estreia, mas o apresenta bem ao pĂşblico. Agora, com licença, pois vou atrás dos demais livros de Raphael Montes.  


Algumas pessoas torcem o nariz quando menciono John Green como uma de minhas inspirações literárias (principalmente quando escrevo para jovens adultos). Muitos dizem que ele segue a mesma forma em todos seus livros, bem, não discordo, contudo, também isso não é uma afirmação correta em sua totalidade.
As histórias de JG possuem, sim, algumas semelhanças. O que, de certo modo, acaba tornando os livros um pouco previsíveis, mas (aqui entra o principal motivo dele me inspirar tanto), ele é muito competente em passar ótimas mensagens e explorar alguns significados da vida. Isso é fato, você aceite ou não. Se JG consegue realizar isso com destreza e perfeição? Em uns livros mais que nos outros, mas consegue falar e sustentar bem a sua ideia. Seus questionamentos aproximam os jovens de temas como morte, perda, futuro, entre outros.
Em Cidades de Papel – livro desta resenha – ele explora o que uma pessoa realmente Ă© e o que como decidimos enxergá-la. Como, Ă s vezes, julgamos conhecer alguĂ©m, mas no fundo, conhecemos apenas a sua superficialidade. Incluindo nĂłs mesmos. É inevitável lançarmos um olhar ao nosso interior, mas tentar descobrir mais sobre quem realmente somos. Há questionamentos sobre a vida, amizades, claro, temas essenciais na literatura de Green. 

Quentin Jacobsen Ă© apaixonado pela vizinha, Margo Roth Spiegelman, desde criança. Na infância, brincavam juntos, mas as coisas mudaram no colĂ©gio. Quentin tornou-se um tĂ­pico nerd e Margo a garota mais popular. Contudo, certa noite, ela convoca para ser seu cĂşmplice num audacioso plano de vingança. Apaixonado desde sempre, claro que ele aceita participar. Uma noite de aventuras se desenrola, algo que Quentin jamais esquecerá. As coisas entre eles parecem ter mudado, entretanto, no dia seguinte o paradeiro de Margo Ă© um mistĂ©rio. Quentin decide encontrá-la custe o que custar, sua atitude Ă© ainda mais impulsionada apĂłs encontrar pistas deixadas por ela. Começa sua jornada atrás da garota que ama, repletas de reviravoltas que acabarĂŁo por desvendar muitos dos mitos e segredos a cerca de Margo.   
Comicidade e acidez são outros elementos da narrativa de JG, gosto de como ele consegue conduzir o leitor através de suas metáforas e mistérios, envolvendo-os. A escrita é a mesma, presente em demais obras do autor o que é bom, mas está tornando-se um pouco massiva, cansativa. São quatro livros no mesmo estilo e estrutura e personagens. Sim.
Os personagens de Cidades de Papel sĂŁo clichĂŞs. O eterno amor entre o nerd e a garota mais popular. Os amigos de Q, sĂŁo os mais idiotas possĂ­veis. Juntos formam um grupo clássico que parte em busca da garota desaparecida. O talento de JG nĂŁo deixa Q e sua turma serem odiáveis, chatos ou cansativos, isso por conta do desenvolver da histĂłria que, em poucos capĂ­tulos, nos faz esquecer o clichĂŞ dos personagens e rir ou refletir junto com eles. Seus personagens podem ser todos clichĂŞs, mas nĂŁo sĂŁo rasos ou vazios. Spiegelman, sobrenome de Margo, em alemĂŁo, Ă© algo como “pessoa que faz espelhos”, metáfora, talvez, para que olhemos Ă s pessoas buscando enxergar alĂ©m delas e nĂŁo um mero reflexo. 

Cidades de Papel Ă© meu segundo romance preferido do autor, perdendo apenas para Quem Ă© VocĂŞ, Alasca?. Uma leitura fácil e divertida, com certa leveza, mas repleta de boas mensagens. E quanto ao final do livro, vi muitos fĂŁs reclamando, cá entre nĂłs: sĂ©rio que vocĂŞs ainda nĂŁo se acostumaram? Os finais de todos os livros sĂŁo assim tambĂ©m, abertos.      

Decidi dar uma chance para Eleanor & Park após ler a resenha escrita por John Green, para o The New York Times. Lançada no Brasil pela editora Novo Século, a obra possuí 325 páginas e foi concebida pela escritora Rainbow Rowell.
Eleanor e Park sĂŁo os protagonistas da histĂłria situada no ano de 1986. Eleanor Ă© a nova garota da escola, alta e com cabelos ruivos, como se isso nĂŁo bastasse para tomar a atenção para si, ela gosta de se vestir de modo estranho. Park Ă© descendente de coreanos, o tipo de garoto legal, mas que nĂŁo toma toda a popularidade para ele. Vidrado em quadrinhos e mĂşsica, duas coisas que ajudam na aproximação entre ele e Eleanor. Guiando-os para uma histĂłria sobre o primeiro amor prĂłxima da realidade,  imperfeita, intensa e interessante.
  Ambos os personagens tardaram em despertar alguma empatia em mim, na verdade, a histĂłria em si, começa lenta e arrastada. SĂŁo situações chatas, bem exploradas pela autora (a tal ponto que, confesso, precisei de certa força de vontade para nĂŁo abandonar a leitura), praticamente fatos reais que ocorrem na adolescĂŞncia. Entretanto, aos poucos, personagens e histĂłria, evoluem, ganham contornos brilhantes e tornam-se apaixonantes. Para quem Ă© familiarizado com quadrinhos ou bandas de Ă©poca, certamente encontrarĂŁo Ăłtimas referĂŞncias, que nos aproximam dos personagens.
É incrĂ­vel o modo como a histĂłria melhora no decorrer das páginas, os personagens conquistam o coração do leitor e o que era fraco, começa a ser Ăłtimo, destaco aqui os diálogos, quase inexistentes no inĂ­cio. As conversas entre Eleanor e Park sĂŁo muito bem construĂ­das, seja quando discutem quadrinhos ou mĂşsica e, principalmente, quando falam deles. Rainbow Rowell narra de modo sutil o amor florescendo entre o casal, nĂŁo Ă© curto o tempo em que eles namoram, sem se beijarem, apenas com o toque das mĂŁos e a troca de olhares. Aos poucos eles descobrem os “segredos” de um relacionamento, algo que para quem está lendo Ă© muito bonito.
Se os protagonistas são personagens bons que conquistam o leitor, embora não em uma primeira impressão, por outro lado, os personagens secundários são pouco explorados e nenhum é realmente memorável. Menciono isso por levar em conta que a história é narrada em terceira pessoa, o que poderia servir para criar outros bons personagens para contribuir com o livro.
Rowell mostra-se hábil na mesma narrativa em terceira pessoa, ao utilizar os POV (Point of Views) ou pontos de visĂŁo. Ora Eleanor, ora Park. Semelhante ao que o George R. R. Martin faz nos livros d’As CrĂ´nicas de Gelo e Fogo, assim como muitos outros escritores. Rainbow utiliza bem a inversĂŁo dos pontos, em certos momentos atĂ© na mesma cena, vemos bastante dos dois personagens na histĂłria. Em dadas partes da histĂłria o narrador parece se expressar diretamente com o leitor, algo realmente bom.
Temos um começo arrastado, um desenvolvimento ótimo e um final que não me convenceu. Achei fraquíssimo ao apresentado anteriormente. Vou me abster de demais comentários sobre o desfecho final, para não prejudicar a leitura ou estragar o interesse de vocês, leitores do blog, no livro. Minhas duas últimas leituras tiveram finais parecidos.
Vale a pena ler Eleanor & Park? Sim. Principalmente pelos diálogos e por se tratar de uma histĂłria fora dos padrões e da pieguice dos romances de “primeiro amor”. Realmente gostei da leitura, entretanto, ela nĂŁo Ă© intocável e possuĂ­ sim, alguns pontos negativos como destaquei.
E eu acho que um filme, se bem produzido e fiel ao original, pode vingar. Os direitos da obra já foram comprados pela DreamWorks Studios. Vamos aguardar.

Bem vindos ao universo da literatura.
Um livro sensível com uma história e um protagonista cativante, é assim que posso definir o livro da autora R. J. Palacio, O Extraordinário, que possuí 320 páginas e foi publicado pela editora Intrínseca.
August “Auggie” Pullman, Ă© o herĂłi que está prestes a enfrentar uma árdua jornada. Algo diferente de tudo o que já viveu: ele irá enfrentar os desafios da escola pela primeira vez.
Auggie sempre estudou em casa tendo a mãe como professora. O desafio consiste em sua adaptação no meio escolar, o que torna as coisas mais difíceis é o fato de August ter nascido com uma rara doença que deixou sua face totalmente desfigurada. Mesmo após muitas cirurgias e tratamentos, as pessoas ainda o olham com repúdio, seja na rua ou em qualquer outro lugar.
Quase todos em sua nova escola nĂŁo lhe dĂŁo atenção, socializam ou sequer se aproximam muito dele. Auggie enfrenta as dificuldades impostas com muita dignidade. Ainda que em muitos momentos desistir pareça ser a opção mais viável, ele sempre pode recorrer Ă  sua famĂ­lia que o ama indubitável e infindavelmente, sem se importarem com sua aparĂŞncia – e, na real, atĂ© mesmo nĂłs aprendemos a amá-lo.


Narrado em primeira pessoa ficamos expostos às suas divagações, seus medos e angústias. Adentramos em uma vida com outra face. A face de Auggie. A história nos transporta a um universo que nós nem imaginamos como é, o universo das pessoas que sofrem de alguma doença ou vítimas de acidentes cruéis, por exemplo. Através de Auggie podemos ter uma noção de como há uma luta diária sob quaisquer que sejam os problemas.
A relação com a família é bem explorada e digna de nota. Quando eu me tornar pai, certamente, terei algumas coisas desse livro como guia. Dentre outras mensagens, o livro explora a importância da amizade e narra uma verdadeira batalha contra o bullying.
Apesar de ser narrado em primeira pessoa, há capítulos de personagens secundários, mostrando seu ponto de vista em relação ao que acontece. Impossível não se identificar com alguns deles.
Eu, particularmente, adorei as referĂŞncias a David Bowie e aos livros O Pequeno PrĂ­ncipe e O Homem Elefante, dentre as demais, essas se destacam. E quem Ă© que nĂŁo gosta de referĂŞncias, nĂŁo Ă©?



Extraordinário é um livro amável, sensível e, acima de tudo, uma leitura cativante, simples, ágil e poderosa. Demorei alguns meses para ler, mas desde a primeira vez que li sua sinopse e busquei informações sobre a história, tive certeza que leria um ótimo livro. E foi exatamente o que aconteceu. Um história sobre compaixão, aceitação, gentileza, amor e esperança que deve ser lida, principalmente por nossas crianças. Livros como esse deveriam estar nas nossas escolas.
O nome do livro já o classifica por si sĂł. 

O Iluminado sem dĂşvidas Ă© um dos melhores – talvez o melhor – livro do escritor Stephen King. Uma trama intrĂ­nseca, personagens profundos e, como a cereja do bolo, fantasmas. Escrito em 1977 este livro Ă© o responsável por firmar a carreira de King como escritor devido ao seu estrondoso sucesso. O nome da obra foi inspirada na mĂşsica Instant Karma do cantor John Lennon, precisamente no trecho onde a letra diz: “We all shine on...”. O escritor, inicialmente, colocaria o nome do livro apenas de The Shine, contudo, “shine” era uma gĂ­ria pejorativa para negros. Mas, obviamente, apenas esses detalhes nĂŁo sĂŁo suficientes para eternizar uma obra. EntĂŁo, o que este livro tem de tĂŁo especial vocĂŞ descobrirá nos parágrafos seguintes.
Esta obra Ă©, provavelmente, a maior histĂłria sobre fantasmas que vocĂŞ poderá ler. Considero, ao lado de A Casa Infernal, os expoentes máximos do gĂŞnero, contudo, há grandes diferenças entre elas. O Iluminado nĂŁo Ă© apenas uma histĂłria repleta de sustos e situações aterrorizantes (nĂŁo que A Casa Infernal seja apenas isso), vai alĂ©m, penetrando na mente humana, explorando nossas fraquezas e qualidades. Se vocĂŞ já leu algum livro do King, sabe que o “sobrenatural”, o “desconhecido”, de suas obras servem apenas como um plano de fundo para o que ele realmente quer nos mostrar: Monstros sĂŁo reais e fantasmas sĂŁo reais tambĂ©m. Vivem dentro de nĂłs e, Ă s vezes, vencem.
. “Danny Torrance nĂŁo Ă© um menino comum. É capaz de ouvir pensamentos e transportar-se no tempo. Danny Ă© iluminado. Será uma maldição ou uma bĂŞnção? A resposta pode estar guardada na imponĂŞncia assustadora do hotel Overlook.
 Em O Iluminado, quando Jack Torrance consegue o emprego de zelador no velho hotel, todos os problemas da famĂ­lia parecem estar solucionados. NĂŁo mais o desemprego e as noites de bebedeiras. NĂŁo mais o sofrimento da esposa, Wendy. Tranquilidade e ar puro para o pequeno Danny livrar-se das convulsões que assustam a famĂ­lia. SĂł que o Overlook nĂŁo Ă© um hotel comum. O tempo esqueceu-se de enterrar velhos Ăłdios e de cicatrizar antigas feridas, e espĂ­ritos malignos ainda residem nos corredores. O hotel Ă© uma chaga aberta de ressentimento e desejo de vingança. É uma sentença de morte. E somente os poderes de Danny podem fazer frente Ă  disseminação do mal.”


A narrativa utilizada por King mostra sua habilidade em nos transportar para dentro da histĂłria. Utilizando os point of views (pontos de visĂŁo), ele nos permite acompanhar nĂŁo somente as ações, mas tambĂ©m os pensamentos dos personagens. Isso auxilia muito no entendimento de suas atitudes. O demasiado uso de “parĂŞnteses” e “itálico” aqui nĂŁo parece algo forçado, ao contrário, Ă© necessário e excelentemente bem utilizado. King nos deixa entre os personagens. É como se pudĂ©ssemos interagir com eles. O emocional construĂ­do nos personagens Ă© exemplar - e tanto quanto pessoal. King impregna os protagonistas com problemas existenciais e morais, problemas estes que podemos encontrar e nĂłs mesmos. Esse Ă© uma das verdadeiras façanhas, nĂŁo sĂł dessa obra, mas sim da genialidade de King.
O plot central do livro aborda uma famĂ­lia que esteve em ruĂ­nas e agora busca se reconstruir e almejam um recomeço. Jack Torrance Ă© um ex alcoĂłlatra, cujo vĂ­cio sĂł lhe trouxera infortĂşnios e desgraças Ă  sua vida. Wendy, por sua vez, Ă© uma bela mulher de gostos simples que, talvez, nĂŁo tenha tido sorte em seu casamento. O filho do casal, Danny, Ă© um garotinho de quatro anos, dĂłcil e meigo, mas que possuĂ­ habilidades nada comuns. Em busca do tĂŁo esperado “recomeço”, Jack aceita trabalhar de zelador no hotel Overlook durante todo o inverno. Este seria o momento para famĂ­lia se reaproximar e tambĂ©m para ele concluir a peça teatral que está escrevendo. Nada poderia dar errado. Ele estava livre do vĂ­cio. Wendy buscava esquecer o passado. Eles nĂŁo contavam que o Overlook era capaz de aflorar os piores sentimentos em seus residentes.
Ao melhor estilo Show, don’t tell (mostre, nĂŁo conte), presenciamos os acontecimentos. Sentimos raiva. RepĂşdio. Terror. Medo. É conhecendo os personagens, se aprofundando em seus pensamentos, que podemos refletir sobre quĂŁo maus e egoĂ­stas podemos ser. Sobre quĂŁo falha nossa humanidade Ă©. Um livro essencial.       




Olá, leitores e leitoras do Legado das Palavras! 

Comecei minha jornada entre os grandes clássicos da literatura mundial, a primeira obra escolhida para leitura foi A Metamorfose (Die Verwandlung em alemĂŁo) do escritor Franz Kafka. Publicada pela primeira vez em meados de 1915, a edição que possui, foi publicada pela editora Companhia das Letras e possuĂ­ 96 páginas. Embora nĂŁo seja sua obra-prima, tornou-se o escrito mais conhecido, difundido e estudado do autor. E, pasme, a obra foi escrita em apenas 20 dias.

A Metamorfose, numa primeira impressĂŁo ou quando vocĂŞ conta a sinopse para um amigo, pode parecer algo burlesco. Confesso que atĂ© mesmo eu, antes de ler, tinha alguma dĂşvida sobre a qualidade do texto, contudo, ao finalizar a leitura nĂŁo consegui deixar de pensar nas mensagens de solidĂŁo, amor, afeto, atĂ© mesmo algo sobre desânimo em relação a vida e, principalmente, sobre fazer o que nĂŁo deseja estar fazendo. Trabalhar em algo que nĂŁo Ă© verdadeiramente o que se deseja. 

Kafka mostra o que realmente é ser solitário, mesmo estando cercado de pessoas. Também nos mostra como as pessoas geralmente abnegam de muitas coisas em prol daquelas a quem ama. Essas mensagens são mostradas no melhor estilo "show, don't tell" (mostre, não conte), narradas sob a perspectiva de Gregor, um homem que repentinamente vê sua vida totalmente transformada, quando em uma manhã, ao acordar, descobre estar transmutado num inseto monstruoso. Através de metáforas, Kafka, consegue contextualizar alguns dramas da sociedade - que muitas vezes, não enxergamos.

A Metamorfose tambĂ©m faz algumas alusões em relação as fraquezas humanas ante a pressĂŁo social, isso fica claramente exposto, como já observado por muitas pessoas que leram a obra, quando Gregor tenta realizar ações rotineiras como caminhar e descer da cama. Isso Ă© uma alusĂŁo a como a sociedade restringe as pessoas, pelo que ela produz e por sua aparĂŞncia. A busca por adequação e o amor servil, acabam trazendo a Gregor - e a todos nĂłs de certa forma - exatamente o oposto que ele busca. Atrapalha seu trabalho e sua famĂ­lia. A solidĂŁo, incompreensĂŁo do mundo e tristeza resultantes da dessa busca por adquação Ă  sociedade, cria uma processo de animalização. Talvez, seja isso que Kafka queira nos dizer. ApĂłs muito ler e pesquisar sobre a obra, acho que Ă© exatamente isso. 

Olá, leitores do Legado das Palavras!
Em 2012 assisti ao filme As Vantagens de Ser InvisĂ­vel que figurou, certamente, em um dos melhores filmes lançados no ano. Conferir o filme me impulsionou a partir em busca do livro, afinal, alĂ©m das Ăłtimas atuações e da trilha sonora, o filme possui uma histĂłria linda. Publicado pela editora Rocco, o livro do escritor – tambĂ©m diretor e roteirista da adaptação cinematográfica – Stephen Chbosky possui 223 páginas.
As Vantagens de Ser Invisível é um romance epistolar, ou seja: é totalmente narrado através de cartas, embora existam outras formas de desenvolver, como notícias de jornais ou diários, mas este não é o caso. O livro apresenta as cartas escritas pelo jovem apelidado de Charlie a um destinatário incógnito, o leitor, onde narra os acontecimentos de sua vida atual: o verdadeiro deságio que é o início do ensino secundário, a superação do suicídio de seu melhor amigo, meses atrás, e um grave trauma de infância. Entre os temas abordados podemos destacar a sexualidade, o uso de drogas, introversão, além de estampar a importância de amizades em nossas vidas.
Chbosky narra a vida de Charlie com extrema sensibilidade, logo nas primeiras páginas fica difícil não se identificar com o protagonista, muitos já enfrentaram alguns de seus medos e também tiveram as mesmas dúvidas. O autor buscou inspiração em sua própria vida para criar alguns personagens e dar mais veracidade à trama. O livro trata com naturalidade alguns temas polêmicos como a descoberta e o uso de drogas por conta de Charlie, outro tema importante é a abordagem de uma relação homoafetiva, muito bem retratada, que ajuda a expandir horizontes e quebrar paradigmas.
A escrita de Stephen Chbosky nĂŁo apresenta genialidade, ou apresenta, depende de como vocĂŞ analisar. Ela nĂŁo Ă© difĂ­cil, clássica e muito descritiva, entretanto, vale lembrar que estamos lendo “cartas” de um jovem do ensino mĂ©dio, cujo Ă  paixĂŁo pela literatura e o dom para escrita Ă© bem demonstrado, logo, temos uma narrativa a altura do personagem, o que faz nos identificarmos ainda mais com Charlie.
A obra possui muitas inspirações, um delas Ă© o escritor Stephen King. Segundo Chbosky seu livro possui muito de algumas obras do mestre do terror, livros Carrie e O Iluminado, alĂ©m do conto, Conta Comigo. FĂŁ confesso do escritor vale citar o que Chbosky disse em uma entrevista, ele acredita que King seja “o maior contador de histĂłrias de todos os tempos”. O livro tambĂ©m apresenta uma vasta lista de referĂŞncias musicais – aliás, o ditado “sexo, drogas e rock’n roll” se encaixa perfeitamente aqui e chega atĂ© mesmo soar de forma poĂ©tica -, algumas das bandas citadas sĂŁo: Nirvana, Beatles, Pink Floyd e, claro, The Smiths com a mĂşsica Asleep (favorita de Charlie). Outras Ăłtimas referĂŞncias sĂŁo as literárias, Bill, professor de Charlie, o estimula atravĂ©s da leitura e indica grandes obras da literatura como: Uma Ilha de Paz (John Knowles), Walden (H.D. Thoreau), O Sol Ă© para Todos (Harper Lee), O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald), Peter Pan (J. M. Barrie) A Nascente (Ayn Rand), Hamlet (William Shakespeare), Almoço Nu (William S. Burroughs), Este Lado do ParaĂ­so (F. Scott Fitzgerald), On The Road/PĂ© na Estrada (Jack Kerouac), O Estrangeiro (Albert Camus) e O Apanhador do Campo de Centeio (J.D. Salinger).
Não quero entrar muito na história por achar que ela é sensível demais e qualquer mínimo spoiler pode vir a comprometer a leitura, contudo, esta é uma obra recomendada, onde é praticamente impossível não se identificar com alguns dos personagens ou com o que estão vivendo. A sutileza da história nos faz refletir acerca de alguns aspectos, como a amizade, por exemplo. A leitura é indispensável, mesmo a adaptação cinematográfica sendo extremamente fiel e tão boa quanto o livro.


Olá, leitores do Legado das Palavras!
Se emocionar ao ler um livro Ă© extremamente normal, desejar um final diferente, onde todos sorriam e a “vida” transcorra perfeitamente bem, tambĂ©m. Mas, e quando isso nĂŁo acontece? E quando o fim Ă© melancĂłlico e triste, alĂ©m de totalmente fora do esperado? Nesse caso, podemos apenas aceitar que alguns escritores sabem conduzir uma histĂłria de tal forma que te faça sorrir, mesmo com o final nĂŁo esperado e desprovido daquela felicidade criada e almejada, durante a leitura, para o final do livro. Se o final decepciona, a culpa Ă© do autor. Caso satisfaça, a culpa tambĂ©m será dele. PorĂ©m, o que acontece quando sorrimos e ficamos com os olhos marejados ao terminar o Ăşltimo capĂ­tulo? De quem Ă© a culpa? Bem, acredito que A Culpa Ă© das Estrelas.
Sem mais delongas, vamos às considerações sobre o livro A Culpa é das Estrelas, do autor John Green, publicado no Brasil pela editora Intrínseca.

Sorrir e chorar. Algo que realmente acontece durante a leitura, Green é habilidoso na escolha das palavras, constrói diálogos interessantes e, por narrar em primeira pessoa, aproxima de modo excelente a personagem, Hazel Grace, do leitor. Aliás, Hazel é o grande destaque do livro, mais que a doença, mais que o romance, mais que a filosofia investida. Uma personagem apaixonante, desde as primeiras páginas até a última. O.K. Às vezes ela se torna irritante, mas, por outro lado, isso humaniza ainda mais Hazel. Mas ela não é a única, Augustus Waters, o Gus, é outro personagem que fará os leitores repensarem muitos aspectos de suas vidas, cheio de metáforas e tão filosófico quanto necessita ser, John Green oferece diversão, alegria, melancolia e muita filosofia na história, através da jornada deste dois personagens. Claro, não podemos nos esquecer do câncer.
A doença ao mesmo tempo é o elo entre todos os acontecimentos do livro, salta aos olhos dos leitores a todo instante, entretanto, fica cada vez mais secundário conforme a trama se desenvolve, magistralmente, o autor consegue lhe fazer se esquecer da doença, mesmo ela estando ali, dentro dos personagens. E, no fim, lhe Green aplica um golpe fulminante, uma reviravolta surpreendente.
Na trama, Hazel Grace é uma paciente terminal que, mesmo lutando contra a doença, auxiliada pela medicina, sabe o desfecho final de sua vida. O que ela nem poderia desconfiar é que alguém entraria em sua vida para, literalmente, fazer a balança pender e mudar sua história. Augustus Waters, o garoto que toda garota quer. Eles se conhecem graças aos encontros do Grupo de Apoio a Crianças com Câncer. Ambos irão completar as ausências de suas vidas em um romance inspirador, corajoso, irreverente e brutal.
John Green arrisca o final de seu livro com uma reviravolta surpreendente, o que faz a diferença, sem dúvidas. Ele consegue conduzir e alternar o tom da história de maneira natural, sem forçar a barra. Em A Culpa é das Estrelas, navegamos no cotidiano de pessoas com câncer, vemos como isso afeta todos à sua volta. A palavra que melhor pode descrever a sensação após o término do livro - tendo em mente que existem pessoas reais como Hazel e Gus - é: Inspiração. O romance é inspirador, te faz ter vontade de viver e lutar mais por seus objetivos. Este é um livro que mostra o porque da Literatura Jovem estar se expandindo para públicos distintos com tamanha eficiência.
Assim como o final de Uma Aflição Imperial, romance por qual a personagem Hazel Ă© apaixonada, o fim de A Culpa Ă© das Estrelas Ă© inesperado, contudo, vocĂŞ já sabe qual o desfecho, foi dito desde o inĂ­cio, o que realmente importa Ă© a jornada. O fim te faz sorrir enquanto lacrimeja. Faz vocĂŞ pensar e repensar. A histĂłria insiste em retumbar na nossa mente. Faz vocĂŞ querer mais. Mas satisfaz. 

Olá, leitores e leitoras do Legado das Palavras!
O ano está excelente para a literatura nacional. Nomes já eternizados no gosto de milhares de leitores lançaram novos - e esperados - livros, o espaço para fantasia e ficção nacional está crescendo e novos autores estão surgindo. Esta resenha irá falar sobre a obra de um destes novos autores. A obra se destaca pelo estilo da narrativa e também por ser capaz de nos fazer refletir acerca de muitas coisas. O livro em questão é Filhos do Fim do Mundo, do autor Fábio M. Barreto, lançado pela Fantasy - Casa da Palavra e possui 287 páginas.
Perspicaz. Singular. Adorável. São qualidades presentes no livro. Uma ficção cientifica que buscar ser mais do que aparenta ser, e consegue. A história por si só é incrivelmente cativante, revisita um tema que sempre esteve em alta no gênero e nesses últimos anos esteve ainda mais, a obra aborda o fim do mundo. Mas não o fim nuclear, não o fim explosivo, mas sim o fim do futuro. Nada de extraterrestres ou hordas intermináveis de mortos-vivos, nem bombas atômicas, o buraco é mais embaixo, o fim é ainda mais cruel.
Na trama, repentinamente, na virada de um dia para o outro, um acontecimento cruel e impensável se espalha por todos os cantos do mundo: bebês recém-nascidos de até um ano de idade estão morrendo misteriosamente. Pouco tempo depois, descobre-se que animais e plantas também estão sofrendo os efeitos do fim do mundo. A notícia se espalha.
Imerso em meio ao caos mundial, está o Repórter, como se não bastasse o inferno pessoal de sua mulher estar prestes a dar à luz ao seu filho, ele é convocado pelo jornal onde trabalha para investigar os acontecimentos e buscar encontrar uma salvação - em um dos lugares que visitou recentemente. Em meio ao ódio e a desconfiança, sua missão é nada menos do que encontrar uma cura, um abrigo e, claro, retardar ao máximo o parto da esposa.
A narrativa do autor é categórica, muito bem construída, tem êxito em conduzir o leitor para o universo do livro, chega a ser gratificante ler o livro com tanta clareza sem se perder - ou dar voltas e mais voltas - até o desfecho. Objetividade e precisão, definem. Palavras que inspiram, trechos que comovem. O clima durante todo o livro é tenso e dramático e até mesmo cômico em certos momentos, mas a comicidade está na história e é difícil quebrar o clima que este fim de mundo construiu. O desfecho é algo surreal, ousado e, ao mesmo tempo, belo.
Em termos de personagens temos outro grande mérito da obra. Eles carecem de nomes próprios, localizações não são citadas, isso faz o leitor se aproximar mais do clima, deixa aberto para que ele se ponha no lugar, que imagine tudo ocorrendo em qualquer canto do mundo. Não é raro ao longo do livro de simpatizar com muito do os personagens oferecem. Fábio Barreto ousa ao criticar em forma de personagens, quem já leu vai se lembrar facilmente de quem é. Tais personagens existem no mundo, principalmente na internet, todos os dias vemos ou lemos algo de pessoas como as descritas, e as atitudes do livro refletem o que fariam em vida, caso o evento realmente ocorresse. Vou dar uma mostra a vocês. Leia o trecho abaixo:

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Essa parte representa uma infinidade de pessoas sem compaixĂŁo ao prĂłximo, sem o mĂ­nimo de abalo com a dor sentida, representa pessoas que se importam apenas com o prĂłprio umbigo. Quanto a parte de gravar a filha agonizante e postar na internet, bom, isso nĂŁo preciso nem comentar, dia apĂłs dia vemos casos bizarros que circulam por aĂ­ - principalmente nas redes sociais. Se o fim do mundo acontecesse,  as redes sociais seriam uma amálgama de lamentações e sarcasmos. Filhos do Fim do Mundo te faz refletir sobre isso.
Faz refletir tambĂ©m sobre a histĂłria. Feche os olhos por alguns segundo e imagine os eventos do livro ocorrendo em nossa realidade, jamais saberĂ­amos definir o que estilhaçaria nossas almas e mentes primeiro: a morte  e sofrimento do presente ou a certeza da ausĂŞncia de um futuro. NĂŁo somos imortais, obviamente, filhos sĂŁo os Ăşnicos meios de continuar nossa existĂŞncia como raça, ser privados desta dádiva seria decretar uma agonizante fim de todas as coisas.
Tenho orgulho de escrever essa matĂ©ria, orgulho deste escritor ser nacional, uma obra que nĂŁo se encontra sempre, principalmente nestes dias nem tĂŁo originais, em termos de histĂłrias. O tema já foi disposto de várias formas, outras incrĂ­veis, algumas ruins, mas poucos de forma tĂŁo visceral, profunda. Se vocĂŞ desiste, o que isso diz sobre vocĂŞ? O gĂŞnero da ficção cientĂ­fica e a literatura estĂŁo “sorrindo” pelo BarretĂŁo nĂŁo ter desistido. Afinal...
Desistir nĂŁo Ă© uma opção.   


Olá, leitores do Legado das Palavras.
Esta resenha tem como pauta um dos melhores livros que já li em toda vida (ok, nĂŁo foram muitos, mas já vale). Um trabalho incrĂ­vel, uma histĂłria intrigante do começo ao fim, centenas de personagens cativantes e tĂŁo humanos, sim, estou falando do livro Sob a Redoma, do autor Stephen King. O primeiro livro do autor Carrie - A Estranha tambĂ©m já foi resenhado aqui no blog. Confesso que demorei um pouco com a leitura deste livro, mas nĂŁo por haver algo nele que atrapalhasse ou fizesse a leitura ficar mais lenta, demorei pelo motivo de estar degustando cada palavra contida em suas 954 páginas. O livro publicado originalmente em 2009, chegou no Brasil em 2012 pelo selo Suma das Letras da Editora Objetiva.

Uma breve histĂłria do livro

Stephen King começou a escrever o livro em meados de 1976 e segundo ele declarou “...fugi com o rabo entre as pernas depois de duas semanas de trabalho...”, essa primeira tentativa rendeu um manuscrito de 75 páginas que se perderia ao longo dos anos.  Contudo, King voltou escrevĂŞ-lo em 2007 para a nossa alegria. Para vocĂŞs terem uma noção do grau tĂ©cnico do conteĂşdo de algumas passagens importantes da histĂłria, SK (Stephen King) recorreu a um grande amigo seu para ser o pesquisador-chefe do livro. Esse amigo Ă© Russ Dorr, um auxiliar mĂ©dico de Bridgeton, no Maine. Dorr aceitou e foi atribuĂ­do a ele a maior parte dos acertos nos dados tĂ©cnicos da trama. Entre as coisas pesquisadas por ele estĂŁo: mĂ­sseis guiados por computador, receitas de metanfetamina, radiação e mais um monte de itens.
O que poderia resultar da vontade deste grande escritor em retomar um antigo projeto, uma vez que ele se sentiu confiável para realizar a obra?
Um livro excelente, primoroso. Sem sombra de dĂşvidas.

Simples mas genial

A trama do livro gira em torno de pequena cidade de Chester’s Mill, no Maine. Em um dia normal, a cidade Ă© subitamente isolada de todo o mundo, envolta por um campo de força invisĂ­vel. Aviões e carros explodem ao se chocarem com a misteriosa redoma - nome dado ao campo de força. Pessoas se ferem e morrem ao tentar trespassá-la. Pássaros morrem ao se chocarem com a parede invisĂ­vel. Tanto os moradores da cidade quanto o mundo externo nĂŁo sabe nada sobre a redoma, como ou pelo que ela foi gerada.
Muito menos se ela irá desaparecer.
Dale Barbara, um soldado veterano da guerra do Iraque, agora trabalha em uma lanchonete da cidade como cozinheiro, se une a um grupo de moradores para buscar manter a ordem no local. Contudo, em contrapartida, existe um homem sedento pelo poder, o segundo vereador da cidade, conhecido como Big Jim Rennie. O político faz de tudo (tudo mesmo) para manter-se no poder e alcançar todos os seus objetivos traçados. E ele precisa de tudo que necessita: sua fé em Deus e nenhum escrúpulo. Apoiado por muitos e tido por alguns como o grande salvador da cidade, ele rapidamente coloca os seus planos em prática, pois, ele enxerga na redoma e no isolamento do mundo externo uma grande chance de reverter e soterrar alguns de seus monstruosos e horrendos segredos. Sempre utilizando a desculpa de que tudo é feito para cidade e para seus moradores.
Enquanto Barbara e seus amigos lutam contra o tempo para encontrar um meio de se livrar da redoma, terão que enfrentar a fúria e a ambição voraz de Rennie. Terão de lidar contra a crueldade humana em seu tom mais primitivo.
O livro em si é uma viagem à mente humana, onde não há bom ou mal, onde existe apenas a luta pela sobrevivência e o desejo pelo poder. Uma ideia simples com um desenvolvimento genial.

Personagens

Sob a Redoma possui mais de 200 (pasmen) personagens. SenĂŁo todos, quase cem por cento, tem a sua deixa na histĂłria. Todos sĂŁo importantes e agregam valores Ă  narrativa. Seus pensamentos e suas atitudes ficam explĂ­citas ao leitor, concorde ou nĂŁo com elas.  Quanto aos personagens mais importantes (sĂŁo muitos) Ă© possĂ­vel entrar na cabeça deles, sentir suas emoções, viajar em seus pensamentos. O trabalho feito em cada um deles Ă© minucioso, representando tantos tipos de pessoas que torna difĂ­cil vocĂŞ nĂŁo se identificar com elas, mesmo atĂ© os personagens mais odiosos que em alguns momentos sĂŁo dignos de pena. Quando alguĂ©m “do mal” morre nĂŁo dá para se sentir aliviado, sentimos somente dĂł e pensamos "já vai tarde (muito tarde)". No inĂ­cio do livro há uma lista das personalidades mais importantes ao longo da trama que estavam no dia em que a redoma surgiu. Isso Ă© importantĂ­ssimo, nĂŁo foram poucas Ă s vezes que tive de consultar esta lista durante minha leitura.

alguns dos principais personagens de Sob a Redoma

Terminantemente, é muito difícil citar personagem por personagem, mas dentre alguns que merecem destaque estão: um rapaz problemático que toma gosto pela necrofilia, uma pastora que não crê na existência de Deus, uma vereadora drogada, pessoas ignorantes tomando sábias decisões e pessoas sábias tomando decisões estúpidas. Mais do que nunca SK transita entre os muitos estereótipos da mente humana. Em minha opinião cito como os melhores personagens aqueles que foram mais trabalhados e tiveram sua importância fundamental para a história:
Dale Barbara, chapeiro e ex-tenente.
Julia Shumway, proprietária e editora do jornal local
Big Jim Rennie (sim, odioso, porém um dos melhores personagens e um dos piores vilões já criados), segundo vereador da cidade.
Joe “Espantalho” McClatchey,  o nerd da histĂłria.
Junior Rennie, filho de Big Jim, monstro inescrupuloso (entenderem o que digo ao lerem o livro)
Rusty Everett, auxiliar médico.
Prestem bastante atenção nestes personagens durante a leitura do livro. Alguns tão dignos e amáveis, outros tão odiosos. Merecem atenção especial.

A escrita e as referĂŞncias

A habilidosa escrita de SK já conhecida por muitas pessoas e por várias outras obras, está ainda melhor e mais deliciosa de ler, o modo como ele leva o leitor pelo enredo é digno de ser inesquecível. Em certos momentos ele apenas sobrevoa por toda a cidade para uma avaliação geral dos acontecimentos no local, visitando os personagens, os principais lugares, ideia já utilizada em outra obra, mas que cai muito bem em Sob a Redoma.
O livro tambĂ©m Ă© um mundo de referĂŞncias e menções, Harry Potter, CrepĂşsculo, Spielberg e atĂ© mesmo de algumas obras suas como A Coisa. NĂŁo Ă© por coincidĂŞncia que ele tem a alcunha de mestre.  

Avaliação final

Muitos não leem SK por medo de suas histórias, algumas de fato são amedrontadoras, mas Sob a Redoma não aborda o medo como tema principal. A história busca delinear a potencialidade das pessoas para causarem o bem ou mal quando estão sob pressão. Deixa a mensagem de saber como e quando agir, além de saber escolher as decisões à serem tomadas e aprender a lidar com as consequências da melhor maneira possível.
O suspense e a tensão no cenário criado por SK é admirável. Sua pratica de transportar o leitor para dentro da história é surreal, não houve sequer um momento que eu tenha desejado abandonar a leitura e não ir à próxima página, ao contrário, era difícil para de ler. Este não é um livro para ser lido rapidamente apenas em busca de chegar ao final da história e desvendar os mistérios, Sob a Redoma merece um tempo dedicado só para ele, desta forma é possível tirar um maior proveito de tudo o que a trama pode oferecer. Apesar de ser lançado recentemente, este livro é uma obra que já considero obrigatória para os fãs do autor e para quem ainda não conhece ou tem medo de conhecer, serve como um excelente pontapé para se aproximar do mundo de Stephen King.