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Legado das Palavras: O Crânio e O Corvo

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Olá, leitores do Legado das Palavras!

Recentemente foram realizadas entrevistas com os autores, Affonso Solano que escreveu o livro O Espadachim de Carvão e também com Fábio M. Barreto, autor de Filhos do Fim do Mundo. Dando continuidade e já fechando uma trilogia de entrevistas, o escritor da vez é Leonel Caldela. Autor da Trilogia Tormenta, Profecias de Urag e do recém-lançado O Código Élfico, respondeu algumas perguntas via email. confira a entrevista na integra: 
  
Sabendo do seu currículo na fantasia medieval, qual a sensação e as dificuldades deste novo trabalho?

Logo de início descobri que, escrevendo no mundo "real" (mesmo que em uma versão fantástica), tudo fica mais próximo do leitor - batalhas, tragédias, diálogos... Isso pode ser muito bom, é claro, pois cria uma identificação maior. Por outro lado, alguns acontecimentos que seriam banais numa obra medieval (como um assassinato, por exemplo) tornam-se mais chocantes no mundo contemporâneo. É preciso ter cuidado para não cruzar a linha entre emocionar o leitor e repeli-lo por violência excessiva. Também houve uns aspectos engraçados: descobri que certos palavrões, embora sejam interessantes e diferentes na boca de personagens medievais, tornam-se só vulgares em personagens contemporâneos...
Além disso, o mundo contemporâneo exige muita pesquisa. Os leitores facilmente identificam qualquer erro, e não há a desculpa de que é um cenário fictício!

Como nasceu "O Código Élfico" ?

A ideia de um elfo criado em laboratório veio do Raphael Draccon, durante uma conversa por telefone, quando a Fantasy estava recém sendo criada. Ele me apresentou este conceito na forma de uma única frase, e me deixou pensando... Ao mesmo tempo, eu estava conduzindo uma campanha de RPG para os meus amigos, num cenário de minha própria autoria, baseado nos Mitos de Cthulhu, de H.P. Lovecraft. Acabei juntando o cenário do jogo com a ideia do Draccon, e surgiu o conceito de elfos como uma raça antiga que cultuava uma deusa profana. Afinal, se pararmos para pensar, os elfos têm muito em comum com as raças lovecraftianas - são ancestrais, poderosos, têm magia e técnicas superiores... A partir daí, os personagens humanos foram criados para responder à ameaça élfica. A cidade de Santo Ossário surgiu como uma espécie de microcosmo para o terror e a aventura do livro - uma pequena cidade do interior, longe dos olhares do resto do país, onde elementos sinistros e heroicos poderiam existir sem serem notados.

Quais suas principais influências literárias?

Muita gente: Bernard Cornwell, Rubem Fonseca, Neal Stephenson... Clive Barker foi especialmente influente para O Código Élfico. Lovecraft foi importante para a criação do cenário, embora no geral não seja uma influência muito grande.

Uma pergunta que eu não poderia deixar de fazer é: Haverá mais romances com a soma Leonel Caldela + Cenário Tormenta?

Gostaria que houvesse! É preciso que eu tenha tempo - o que hoje em dia não está fácil. Mas amo Tormenta, então sempre existe esse desejo. Enquanto isso, me mantenho ativo no cenário através de livros de RPG.

Qual a sua visão sobre a crescente em que se encontra os gêneros de fantasia, ficção e etc...no Brasil?

Para mim, isto faz parte de uma tendência muito positiva de tornar a literatura menos elitista no Brasil. Durante muito tempo, livros eram vistos como reduto de intelectuais. A maioria das pessoas tinha reações do tipo "orgulho de não ler" ou até "sou incapaz de ler". Mas isto está mudando - em grande parte já mudou. E a fantasia está na linha de frente desta luta, com livros que geram interesse genuíno no público, mostram que literatura não é nada elitista ou hermético, apenas mais uma forma de cultura e entretenimento. Acho que a fantasia ainda vai crescer muito, e vai empurrar ainda mais esta popularização da leitura.

E, para finalizar, poderia dar alguma dica para quem está começando escrever agora?

Comecem com obras pequenas - contos, principalmente. Isso vai ensinar o fôlego necessário para escrever grandes romances, trilogias ou séries inteiras. Quando entrarem em contato com editoras, preparem-se para algumas (ou várias) rejeições, e ouçam tudo que os editores disserem. São dicas valiosíssimas, e se alguém toma tempo para dá-las, devem ser valorizadas. Por fim, publiquem seu trabalho em blogs ou outras mídias bem acessíveis, justamente para que possam ser vistas. E preparem-se para um caminho longo - mas muito recompensador!

Para ler as resenhas publicadas no blog sobre as obras de Caldela, clique nas capas:

As Profecias de Urag



Trilogia Tormenta







Olá, leitores do Legado das Palavras. Espero que todos tenham tido ótimas festas e que esse novo ano seja cheio de alegrias e perseveranças para todos nós. Como prometido, continuarei a trilogia de resenhas dos livros do autor Leonel Caldela, semana passada tivemos a resenha de O Inimigo do Mundo. Hoje, obviamente, resenharei o segundo livro da Trilogia Tormenta, intitulado O Crânio e o Corvo. É o segundo romance ambientado no cenário de Tormenta, no mundo de Arton e dá sequência aos acontecimentos narrados no livro anterior. O livro foi publicado pela editora Jambô e possuí  512 páginas.
Desta vez escolhi colocar aqui a sinopse oficial do livro, para evitar spoilers, uma vez que terei de dar um logo abaixo:

“Mas intriga e traição infestam os reinos, enquanto muitos trocam sua própria humanidade pelo poder macabro oferecido pelos invasores. Heróis em uma batalha desesperada contra um inimigo além da compreensão. Vida e morte. Dia e noite. Bem e mal. Ordem e caos. Se a Tormenta vencer, nada disso restará.”

Dez anos após os eventos narrados no primeiro livro, estamos novamente no mundo de Arton. Entretanto, dessa vez, com outros personagens como protagonistas, dentre eles, Sir Orion Drake, um poderoso cavaleiro da Ordem da Luz, devoto do deus da justiça, Khalmyr; Orion Drake, se devota a encontrar e destruir seu próprio pai, conhecido como O Cavaleiro Risonho. Ao longo do livro as motivações e o porque sobre ele ir em busca do fratricídio. Orion é o melhor personagem criado por Caldela em toda a trilogia, cada momento de sua história contada pelo autor somente vem a agregar valores e admiração ao personagem que, além de tudo, é cativante e tem êxito em prender a atenção do leitor.  

 O antagonista, contrario a tudo que o cavaleiro representa, é apresentado como um temível vilão conhecido pela alcunha de Crânio Negro, um mercenário poderoso e, segundo dizem, imortal, mesmo sendo por muitas vezes mortalmente ferido, ele tornava a se levantar. O que poucos sabem, no entanto, é que esse ser nefasto trata-se de um servo fiél aos demoníacos Lordes da Tormenta. Personagem muito conhecido para quem já conhecia o cenário pelo RPG. O personagem é muito bem desenvolvido ao longo da trama, apesar de ser vilão, é impossível não gostar do personagem.

E o mundo tem suas estruturas abaladas quando os caminhos destes dois personagens se cruzam.

[SPOILER]

Queria evitar o spoiler, mas para a continuação da resenha ele é extremamente vital.
Ao final do livro O Inimigo do Mundo, os heróis trazem algo pavoroso e destrutivo ao mundo de Arton. Algo que, se não for detido, irá obliterar toda e qualquer forma de vida em Arton. Uma tempestade de rubra, que traz consigo loucura e morte. Algo infernal.

Após, esse pequeno spoiler, podemos dar continuidade à resenha.

Outro tantos personagens memoráveis merecem ser citados, personagens fundamentais para o discorrer da trama e para a conclusão final, além do autor ter o dom para criar personagens tão humanizados, mas capazes de atingir (e ir além) de suas forças. Caldela também tem o dom de criar coadjuvantes tão apaixonantes quanto os protagonistas entre eles podemos citar, Trebane, um centauro druida amigos de Orion; Ingram Brassbones, um anão pistoleiro, um dos personagens mais cativantes; temos velhos conhecidos do livro anterior, os personagens Ashlen Ironsmith, Artorius o minotauro,  e o mago Rufus. Zebediah Nash, médico de Salistick, tido como o reino sem deuses. Vincent e Darien, dois bandoleiros que vão de pobres irresponsáveis ao centro dos acontecimentos principais. E (na minha opinião) a melhor coadjuvante, Vanessa Drake, esposa de Orion e Clériga de Keen, o deus da Guerra. Uma mulher determinada e poderosa, capaz de aguentar coisas terríveis para alcançar o seus objetivos, além de jamais abandona o esposo. Prestem muita atenção nesta personagem quando lerem o livro e entenderão.

Leonel Caldela não decepciona na continuação de sua trilogia, e em seu segundo romance escrito, o eleva a um grau superior. Caldela em seu primeiro romance veio arrebatador, já no segundo é impossível não se render ao seu estilo e descrição, além de conduzir o enredo de modo cativante. A trama é eletrizante e surpreendente, mas de uma forma nada clichê.  O Crânio e o Corvo merece ser apreciado e o autor merece todo o crédito recebido. Considero este o melhor livro da trilogia. Em breve a resenha de O Terceiro Deus, último livro da Trilogia Tormenta.