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Legado das Palavras: Resenha

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Trinta e seis anos depois, o escritor Stephen King respondeu a pergunta: o que aconteceu com Danny e Wendy Torrance apĂłs os eventos no hotel Overlook? A resposta chegou com um impactante e incrĂ­vel romance, o Doutor Sono, sequĂŞncia direta do livro O Iluminado, publicado em 1977. Lançado originalmente em 2013, a sequĂŞncia chegou ao Brasil em 2014, publicado pela Suma das Letras Ă‰ King em sua (quase habitual) velha e boa forma. E antes que vocĂŞs perguntem, sim, Ă© assustador.
No início do livro seguimos uma linha do tempo. Nela acompanhamos alguns dos acontecimentos mais marcantes da vida de Daniel Anthony Torrance, após sua aterrorizante experiência na história anterior. Quem acreditava que o garotinho meigo e sensível, que crescera perturbado por entidades, se tornaria um adulto exemplar, acaba sendo surpreendido ao vê-lo num estado de degradação à la Jack Torrance.
Herdando os vícios do pai, o que vemos é um sujeito refém do álcool e atormentado, seja pelo passado distante ou mais recente; um homem que vive solitariamente, pulando de cidade em cidade, sem se fixar.
Quando consegue se estabilizar e começar efetivamente a enfrentar o vĂ­cio, Dan entra em contato com algo ligado diretamente ao seu passado e sua infância. E, faz uma nova amizade, com a carismática Abra Stone – uma garota cujos poderes de iluminação sĂŁo os maiores já presenciados por Dan. O problema Ă© que os poderosos dons de Abra tambĂ©m atraem os olhares de pessoas malignas e inescrupulosas, entrelaçando, assim, sua vida com a de Dan Torrance. Obrigando seu novo amigo a lutar por todas as coisas boas conquistadas em sua vida atual. E todos a quem aprendeu gostar, incluindo Abra.

O Iluminado é frequentemente (e merecidamente) citado como um dos romances mais assustadores de King, o que, de fato, é. Quando foi anunciado que sairia uma continuação dele, pensei em duas coisas: 1) eu realmente quero saber o depois da história e 2) que seja bom, pelo amor de Deus, que seja bom.
Ambos os pensamentos tiveram respostas que superaram as expectativas iniciais. Continuações sĂŁo difĂ­ceis, ainda mais se tratando de uma das obras-primas do autor. Mas, felizmente, ele teve ĂŞxito. Doutor Sono nĂŁo sĂł Ă© assustador, mas tambĂ©m trabalha elementos dramáticos com imensa maestria. Quanto a escrita, Ă© interessante observar como a narrativa e as ferramentas usadas sĂŁo idĂŞnticas ao do romance interior. Nem parecem ter trĂŞs dĂ©cadas de diferença. E isso Ă© algo positivo, vocĂŞ pode entender como se a escrita do autor nĂŁo tivesse melhorado em nada, mas nĂŁo, nĂŁo Ă© isso. Foi importante Doutor Sono manter essa “herança da escrita” de O Iluminado.  
A escrita densa e realística de King continua a mesma. Sempre ótima. Ele sabe dosar as palavras, frases, parágrafos, trabalhar com o suspense e, principalmente, com o sentimento dos leitores. Dentre outros aspectos, já citados, o sempre presente não conte-me, mostre é feito com proficiência.
NĂŁo Ă© segredo que Stephen King coloca muito de suas experiĂŞncias pessoais nas obras em seus livros. AlcoĂłlatras, drogados, experiĂŞncias de quase morte e, claro, superação. Ou seja, alĂ©m do clima tenso e supernatural, da crueldade humana (e sobre humana) quase sempre presente em suas obras, e aqui Ă© mantida, ainda em relação ao primeiro livro, podemos explorar diversos outros componentes que constituem a sequĂŞncia. É o tipo de histĂłria que leva o leitor da lama ao chuveiro, em momentos prazerosos de leitura. Há capĂ­tulos em que conseguimos odiar e repudiar Danny, mas com habilidade, a narrativa nos faz torcer por ele e sua recuperação – e deixa feliz quando lemos a superação acontecer.
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Danny Torrance é um abismo de profundidade. Conhecemos seus medos, seus desejos; quase choramos com algumas atitudes, sorrimos com outras. Ele se consolida como um dos mais memoráveis personagens criados por King.
E, aqui, abro espaço para Abra Stone. Aquela garotinha inteligente e determinada, movida por bons sentimentos em relação ao mundo, mesmo quando a morte e dor a espreitam. Como já dito, seu poder de iluminação é gigantesco, o que atrai a atenção do Verdadeiro Nó, um dos grupos de vilões mais inescrupulosos já criados pela mente de seu criador.
Liderados por Rose, A Cartola, eles formam uma caravana itinerante, que viaja todos os Estados Unidos, como pessoas ricas, aposentadas e que sĂł desejam curtir o resto da vida na Terra.  O grupo possui vários seguidores, cuja interminável viagem pelo paĂ­s, Ă© baseada em apenas uma busca: crianças iluminadas.
Eles alimentam-se da essência deixada por elas, após submetê-las a uma cruel sessão de tortura ritualística. As vítimas exalam uma espécie de vapor, tal preciosidade é o que o Verdadeiro Nó busca, é o que os mantém fortes e vivos e imortais. São vampiros implacáveis a caça de sua fonte de juventude.
Se você acha que nada poderia ser mais insano que diversos espíritos presos, através das décadas, dentro de um hotel, querendo a alma de um garoto iluminado: prepare-se.
Quem já leu, sabe o quão alucinante é a criação desses caçadores de iluminados. Já deu pra sacar que Abra e Dan se unirão para detê-los, não é? Pois é.
Há outros ótimos personagens pelo lado do bem. Como o doutor John Dalton ou os pais de Abra. Além deles, cito o velho Billy e Momo, Cocetta, indispensáveis para o enredo. Em contrapartida, cada um dos integrantes do Verdadeiro Nó nos causa repulsa. Estejam reunidos ou sós, todos são odiáveis. Ao ler você descobrirá do que escrevo aqui.

Doutor sono torna-se leitura indispensável do currículo de Stephen King, não apenas por ser uma continuação, mas por espetacular. É difícil dizer qual seria a experiência de leitura, por parte de quem não leu O Iluminado, mas certamente seria incompleta. Digo isso, pois na Nota do Autor, King deixa claro que assistir ao (ótimo) filme dirigido por Stanley Kubrick, não dá bagagem necessária sobre a família Torrance para a leitura de Doutor Sono. E eu concordo.
Por fim, ressalto as muitas referências que o livro faz a outros livros e séries, músicas e filmes, adorados por Stephen King. Assim como o que ele também não gosta.

Leitura mais que recomendada. Parada obrigatĂłria para os fĂŁs do escritor. 


Algumas pessoas torcem o nariz quando menciono John Green como uma de minhas inspirações literárias (principalmente quando escrevo para jovens adultos). Muitos dizem que ele segue a mesma forma em todos seus livros, bem, não discordo, contudo, também isso não é uma afirmação correta em sua totalidade.
As histórias de JG possuem, sim, algumas semelhanças. O que, de certo modo, acaba tornando os livros um pouco previsíveis, mas (aqui entra o principal motivo dele me inspirar tanto), ele é muito competente em passar ótimas mensagens e explorar alguns significados da vida. Isso é fato, você aceite ou não. Se JG consegue realizar isso com destreza e perfeição? Em uns livros mais que nos outros, mas consegue falar e sustentar bem a sua ideia. Seus questionamentos aproximam os jovens de temas como morte, perda, futuro, entre outros.
Em Cidades de Papel – livro desta resenha – ele explora o que uma pessoa realmente Ă© e o que como decidimos enxergá-la. Como, Ă s vezes, julgamos conhecer alguĂ©m, mas no fundo, conhecemos apenas a sua superficialidade. Incluindo nĂłs mesmos. É inevitável lançarmos um olhar ao nosso interior, mas tentar descobrir mais sobre quem realmente somos. Há questionamentos sobre a vida, amizades, claro, temas essenciais na literatura de Green. 

Quentin Jacobsen Ă© apaixonado pela vizinha, Margo Roth Spiegelman, desde criança. Na infância, brincavam juntos, mas as coisas mudaram no colĂ©gio. Quentin tornou-se um tĂ­pico nerd e Margo a garota mais popular. Contudo, certa noite, ela convoca para ser seu cĂşmplice num audacioso plano de vingança. Apaixonado desde sempre, claro que ele aceita participar. Uma noite de aventuras se desenrola, algo que Quentin jamais esquecerá. As coisas entre eles parecem ter mudado, entretanto, no dia seguinte o paradeiro de Margo Ă© um mistĂ©rio. Quentin decide encontrá-la custe o que custar, sua atitude Ă© ainda mais impulsionada apĂłs encontrar pistas deixadas por ela. Começa sua jornada atrás da garota que ama, repletas de reviravoltas que acabarĂŁo por desvendar muitos dos mitos e segredos a cerca de Margo.   
Comicidade e acidez são outros elementos da narrativa de JG, gosto de como ele consegue conduzir o leitor através de suas metáforas e mistérios, envolvendo-os. A escrita é a mesma, presente em demais obras do autor o que é bom, mas está tornando-se um pouco massiva, cansativa. São quatro livros no mesmo estilo e estrutura e personagens. Sim.
Os personagens de Cidades de Papel sĂŁo clichĂŞs. O eterno amor entre o nerd e a garota mais popular. Os amigos de Q, sĂŁo os mais idiotas possĂ­veis. Juntos formam um grupo clássico que parte em busca da garota desaparecida. O talento de JG nĂŁo deixa Q e sua turma serem odiáveis, chatos ou cansativos, isso por conta do desenvolver da histĂłria que, em poucos capĂ­tulos, nos faz esquecer o clichĂŞ dos personagens e rir ou refletir junto com eles. Seus personagens podem ser todos clichĂŞs, mas nĂŁo sĂŁo rasos ou vazios. Spiegelman, sobrenome de Margo, em alemĂŁo, Ă© algo como “pessoa que faz espelhos”, metáfora, talvez, para que olhemos Ă s pessoas buscando enxergar alĂ©m delas e nĂŁo um mero reflexo. 

Cidades de Papel Ă© meu segundo romance preferido do autor, perdendo apenas para Quem Ă© VocĂŞ, Alasca?. Uma leitura fácil e divertida, com certa leveza, mas repleta de boas mensagens. E quanto ao final do livro, vi muitos fĂŁs reclamando, cá entre nĂłs: sĂ©rio que vocĂŞs ainda nĂŁo se acostumaram? Os finais de todos os livros sĂŁo assim tambĂ©m, abertos.      

Imagine um detetive, um verdadeiro mito entre os seus colegas de profissão, conhecido por sempre obter êxito em trancafiar criminosos atrás das grades. Uma mente brilhante e sagaz voltada para o bem. Agora, imagine um ladrão de bancos inescrupuloso, assassino, frio e cruel, desprovido de sentimentos. Tão perspicaz e efetivo quanto o detetive. Uma lenda intocável. Nunca deixa rastros, nem sobreviventes e nem dinheiro nos bancos que assalta. Um, a faísca. O outro, o combustível. O livro A Caçada, de Clive Cussler, é a combustão concebida pelo choque destes dois personagens.
Publicado originalmente em 2007, quase seis anos depois, a editora Novo Conceito o trouxe para o territĂłrio tupiniquim, o livro que Ă© considerado o auge da carreira de Cussler.
A trama acontece em um Estados Unidos do início do século vinte, onde o governo norte americano contrata a renomada e proeminente Agência de Detetives Van Dorn. Dentre os muitos detetives da agência, existe um que se destaca dos demais como montanhas em uma planície, e, seu nome, é tão respeitado quanto o da Van Dorn. Esse é o detetive, Isaac Bell. Ele é encarregado de capturar o nefasto ladrão de bancos, conhecido pela alcunha agourenta de Assaltante Açougueiro. O criminoso é uma máquina de pilhar e assassinar, sem distinção, homens, mulheres, crianças e idosos. Ele nunca deixa rastros.
Tampouco testemunhas de seus crimes.
Bell e os agentes da Van Dorn, após muitas dificuldades descobrem a identidade do Assaltante Açougueiro. E, deste momento em diante, uma verdadeira caçada inicia-se em prol da justiça.
Cussler possui uma narrativa habilidosa, ele transporta o leitor através do cenário e do tempo de modo impressionante. Os detalhes das cidades, os costumes das pessoas da época, os trajes. Os carros. A locomotiva. Há um capítulo inteiro onde ele descreve Bell em seu carro em uma corrida alucinada atrás do rastro do Assaltante Açougueiro. Cussler é milimetricamente perfeito ao descrever a funcionalidade da máquina. E assim ocorre com a locomotiva.
Uma reviravolta em forma de catástrofe ocorre em perfeita coesĂŁo no exato momento quando tudo parece estar rumo ao desfecho final. Algo de proporção babilĂ´nica e brilhantemente narrada por um escritor que tem clara consciĂŞncia sobre o que está escrevendo.   
Os personagens protagonistas sĂŁo muito bem descritos, enquanto Bell Ă© o detetive galante e implacável, o Assaltante Açougueiro Ă© frio, calculista e sem escrĂşpulos. Ao mesmo tempo, Marion – par romântico de Bell -, Ă© meiga, dĂłcil e um tanto ingĂŞnua, Margaret, Ă© uma personagem que vive literalmente na luxĂşria.
A Caçada tem um ritmo frenético e alucinante, seja pela habilidosa narrativa ou pela locomotiva a vapor. Uma história sobre o bem e o mal. Sobre justiça e injustiça. Um thriller com suspense, ação e muita tensão.
Uma aventura de Isaac Bell.            


A nostalgia Ă© quase certeira quando se trata de Power Rangers. Quem cresceu na dĂ©cada de noventa certamente se lembra da febre gerada pelos defensores da Terra, numa luta incansável contra Rita Repulsa e Lord Zedd. Inspirado em Tommy, Jason Lee e sua turma, assim como em diversas outras sĂ©ries tokusatsus, o escritor brasileiro, Raphael Draccon, estreando no selo Fantástica, da editora Rocco, traz atĂ© seus leitores seu mais recente trabalho: CemitĂ©rios de Dragões – Legado Ranger.
Tamanha foi minha empolgação com o livro que comprei durante a Bienal do Livro de SĂŁo Paulo deste ano. Desde já, ressalto o Ăłtimo trabalho feito pela Rocco, incluindo a belĂ­ssima capa de CemitĂ©rios de Dragões. Raphael Draccon nĂŁo decepciona os fĂŁs acostumados com suas temáticas inspiradas livremente por outras obras. É assim na trilogia Dragões de Éter, cuja inspiração vem dos contos clássicos dos irmĂŁos Grimm e tambĂ©m com Fios de Prata – Reconstruindo Sandman, que vocĂŞs devem imaginar em qual obra Ă© inspirado.

Contudo, confesso que o livro me decepcionou um pouco. Como fã, acompanhando a escalada do Draccon, acredito que esse trabalho ficou abaixo da qualidade vista em Fios de Prata, que por sua vez é superior a trilogia Dragões de Éter (não comentemos aqui sobre Espíritos de Gelo). Sua escrita melhorou ainda mais, entretanto, não posso deixar de destacar o uso recorrente que ele faz de certos termos que se repetem exaustivamente ao longo de todo o livro, mesmo problema que encontrei no ótimo livro Nas Montanhas da Loucura, de H. P. Lovecraft.

A história? É o seguinte:
Um soldado de elite do exército americano desaparecido em uma missão no Afeganistão. Uma africana guerrilheira crescida em meio a conflitos étnicos de Ruanda.Uma garçonete irlandesa praticante de artes marciais mistas. Um hacker brasileiro descendente de orientais. Um dublê francês mestre em Parkour. Cinco realidades distintas. Um fenômeno desconhecido faz cinco pessoas, sem qualquer conexão e espalhadas pelo planeta Terra, acordarem em diferentes regiões de uma realidade devastada por um império de reptilianos e assolada pela escravidão. Os cinco iniciam uma jornada em busca de respostas para sobreviverem no centro de uma guerra envolvendo criaturas fantásticas e demônios dispostos a invocar perigosos seres abissais para servirem a seus propósitos. Porém uma entidade pretende conectar o destino dos cinco humanos e armá-los com uma tecnologia construída à base de metal-vivo, magia e sangue de dragões. Uma tecnologia jamais vista naquela ou em qualquer outra dimensão, capaz de gerar heróis de metal. Batalhas empolgantes, romance e magia.

A histĂłria funciona bem, principalmente com a Ăłtima narrativa em “pontos de visĂŁo” dos cinco personagens. O universo criado Ă© realmente interessante, mas apresenta pouquĂ­ssimo de originalidade e de coisas novas, nesse aspecto, as inspirações atrapalham bastante a construção do cenário. Tudo o que lemos e descobrimos Ă© algo que já vimos e estamos revisitando, sob uma nova Ăłtica, ainda que ela nos conduza bem. Vi algumas pessoas comentando que o livro seria uma fanfic de Power Rangers, discordo pelo simples fato de acreditar que vá alĂ©m de suas inspirações (oras, Ă© uma inspiração. A obra nĂŁo Ă© situada dentro de um universo conhecido) ganhando contornos autorais, embora essas inspirações estejam muito mais visĂ­vel aqui que em seus outros livros.
Pulando para os principais vilões do livro, os antagonistas sádicos e brutais, são desprovidos de qualquer limite para conquistar o poder. E isso os fazem bons: eles querem apenas o poder e não possuem nada a perder. Quanto aos protagonistas, vamos lá: Derek, um soldado americano. Amber, uma garçonete irlandesa. Ashanti, a guerrilheira de Ruanda. Daniel, um hacker brasileiro. E Romain, um dublê francês. Os três primeiros funcionam muito bem, embora Amber seja um tanto irritante, junto com Derek, ela torna-se mais aceitável. Ashanti é disparada a melhor personagem, uma mulher de garra e fibra, que é impossível não ganhar a atenção e cair no gosto do leitor. Se a ruandesa é tudo isso, em contrapartida temos Daniel e Romain, personagens irritantes desde suas primeiras aparições. Descolados e impregnados com uma personalidade nerd, ambos não funcionam juntos em todo tempo, mesmo que tenham seus ótimos momentos juntos. Piadas horríveis e uso em demasia de vagas referências pop contribuem bastante para a desvalorização de tais personagens.
O livro consegue transmitir algumas boas mensagens, contando com trechos altamente emotivos. As lutas sĂŁo empolgantes, com Ăłtimas descrições que ajudam imensamente na imaginação visual das ações. Os Ăłtimos diálogos sustentam boa parte da obra, aliados as descobertas dos protagonistas a cerca do mundo onde se encontram. Realmente gostei muito de saber como eles foram enviados atĂ© o lugar e tambĂ©m fica claro o motivo de serem personagens tĂŁo distantes. Já as armaduras que ganharam por completo, desde suas origens atĂ© os detalhes narrados, esse Ă© um dos fatores que me levará a ler a continuação, quero ver mais delas em combate. A mescla entre fantasia e ficção cientĂ­fica funciona bem.   



 Em minha opiniĂŁo, nĂŁo Ă© a melhor obra do autor, mas Ă© uma boa leitura, principalmente pelo fator nostálgico. O final do livro revela o verdadeiro plano do autor que, claro, nĂŁo revelarei aqui, mas digo que estou curioso para ver como Draccon fugirá de clichĂŞs.
Se você é fã de tokusatsus, desenhos como A Caverna do Dragão e afins, é uma boa pedida. Se você é fã do Draccon, não deixe de ler. Apesar dos problemas que me irritaram um pouco durante a leitura, a aventura flui bem, talvez seja eu que não tenha conseguido deixar as inspirações de lado para apreciar mais a leitura de Cemitérios de Dragões. Raphael Draccon segue como um grande nome da literatura nacional de fantasia. Torço para que sua carreira decole ainda mais e que ele nos traga muitas outras obras.

AtĂ© a prĂłxima.  

Decidi dar uma chance para Eleanor & Park após ler a resenha escrita por John Green, para o The New York Times. Lançada no Brasil pela editora Novo Século, a obra possuí 325 páginas e foi concebida pela escritora Rainbow Rowell.
Eleanor e Park sĂŁo os protagonistas da histĂłria situada no ano de 1986. Eleanor Ă© a nova garota da escola, alta e com cabelos ruivos, como se isso nĂŁo bastasse para tomar a atenção para si, ela gosta de se vestir de modo estranho. Park Ă© descendente de coreanos, o tipo de garoto legal, mas que nĂŁo toma toda a popularidade para ele. Vidrado em quadrinhos e mĂşsica, duas coisas que ajudam na aproximação entre ele e Eleanor. Guiando-os para uma histĂłria sobre o primeiro amor prĂłxima da realidade,  imperfeita, intensa e interessante.
  Ambos os personagens tardaram em despertar alguma empatia em mim, na verdade, a histĂłria em si, começa lenta e arrastada. SĂŁo situações chatas, bem exploradas pela autora (a tal ponto que, confesso, precisei de certa força de vontade para nĂŁo abandonar a leitura), praticamente fatos reais que ocorrem na adolescĂŞncia. Entretanto, aos poucos, personagens e histĂłria, evoluem, ganham contornos brilhantes e tornam-se apaixonantes. Para quem Ă© familiarizado com quadrinhos ou bandas de Ă©poca, certamente encontrarĂŁo Ăłtimas referĂŞncias, que nos aproximam dos personagens.
É incrĂ­vel o modo como a histĂłria melhora no decorrer das páginas, os personagens conquistam o coração do leitor e o que era fraco, começa a ser Ăłtimo, destaco aqui os diálogos, quase inexistentes no inĂ­cio. As conversas entre Eleanor e Park sĂŁo muito bem construĂ­das, seja quando discutem quadrinhos ou mĂşsica e, principalmente, quando falam deles. Rainbow Rowell narra de modo sutil o amor florescendo entre o casal, nĂŁo Ă© curto o tempo em que eles namoram, sem se beijarem, apenas com o toque das mĂŁos e a troca de olhares. Aos poucos eles descobrem os “segredos” de um relacionamento, algo que para quem está lendo Ă© muito bonito.
Se os protagonistas são personagens bons que conquistam o leitor, embora não em uma primeira impressão, por outro lado, os personagens secundários são pouco explorados e nenhum é realmente memorável. Menciono isso por levar em conta que a história é narrada em terceira pessoa, o que poderia servir para criar outros bons personagens para contribuir com o livro.
Rowell mostra-se hábil na mesma narrativa em terceira pessoa, ao utilizar os POV (Point of Views) ou pontos de visĂŁo. Ora Eleanor, ora Park. Semelhante ao que o George R. R. Martin faz nos livros d’As CrĂ´nicas de Gelo e Fogo, assim como muitos outros escritores. Rainbow utiliza bem a inversĂŁo dos pontos, em certos momentos atĂ© na mesma cena, vemos bastante dos dois personagens na histĂłria. Em dadas partes da histĂłria o narrador parece se expressar diretamente com o leitor, algo realmente bom.
Temos um começo arrastado, um desenvolvimento ótimo e um final que não me convenceu. Achei fraquíssimo ao apresentado anteriormente. Vou me abster de demais comentários sobre o desfecho final, para não prejudicar a leitura ou estragar o interesse de vocês, leitores do blog, no livro. Minhas duas últimas leituras tiveram finais parecidos.
Vale a pena ler Eleanor & Park? Sim. Principalmente pelos diálogos e por se tratar de uma histĂłria fora dos padrões e da pieguice dos romances de “primeiro amor”. Realmente gostei da leitura, entretanto, ela nĂŁo Ă© intocável e possuĂ­ sim, alguns pontos negativos como destaquei.
E eu acho que um filme, se bem produzido e fiel ao original, pode vingar. Os direitos da obra já foram comprados pela DreamWorks Studios. Vamos aguardar.


VocĂŞ alguma vez já buscou o seu “Grande Talvez”? Mas, o que seria o “Grande Talvez”? 
Acredito que seja algo em torno de viver a vida. Abandonar a zona de conforto, buscar emoções nĂŁo sentidas, desafios nĂŁo vividos. Quebrar as regras, Ă s vezes, sim. Conhecer, viver, sorrir, chorar, explorar, muitas coisas podem englobar o Grande Talvez, cada pessoa irá encontra-lo com sua singularidade. 
Acredito nisso.
É assim, filosofando, que se inicia o livro Quem é Você, Alasca?, do famigerado escritor John Green.
Antes do sucesso meteĂłrico de A Culpa Ă© das Estrelas e Cidades de Papel, Green, logo em seu romance de estreia, já mostrava sinais do quĂŁo habilidoso, filosĂłfico e sensĂ­vel era sua escrita. Quem Ă© VocĂŞ, Alasca? Ă© de longe, mas muito longe, o livro que mais gostei do autor, e isso nĂŁo significa que eu ache os demais ruins – já Ă© possĂ­vel imaginar o quĂŁo bom todos sĂŁo, nĂŁo?
A história triunfa em seus momentos existencialistas, em seus questionamentos sobre a vida e o viver. No modo como mostra que nós somos moldados por nossas vivências. Amizade e amor são temas bem explorados no livro, de uma forma menos clichê que as encontradas convencionalmente. O perdão, talvez mais o autoperdão, também tem lugar de destaque no enredo, ele nos faz assumirmos quem realmente somos e saber que nos momentos vividos fizemos o nosso melhor, mesmo que as consequências nem sempre sejam as desejadas. Até mesmo algumas questões religiosas são abordadas.

Miles Halter Ă© um adolescente fissurado por cĂ©lebres Ăşltimas palavras - e está cansado de sua vidinha segura e sem graça em casa. Vai para uma nova escola Ă  procura daquilo que o poeta François Rabelais, quando estava Ă  beira da morte, chamou de o 'Grande Talvez'. Muita coisa o aguarda em Culver Creek, inclusive Alasca Young. Inteligente, engraçada, problemática e extremamente sensual, Alasca levará Miles para o seu labirinto e o catapultará em direção ao Grande Talvez.  

Os personagens sĂŁo uma bela fonte de conhecimento e referĂŞncias. A narrativa em primeira pessoa favorece a descrição e a profundidade das vivencias de Miles ao ingressar em Culver Creek. O cĂ­rculo de amigos (Takumi Hikohito, Chip "O Coronel" Martin, Lara Buterskayaque) que forma-se Ă© interessante por suas diferenças, cada qual com sua singularidade, conforme avançamos na histĂłria, eles se tornam aquele grupo de amigos inseparáveis, aqueles amigos dos quais jamais nos esqueceremos por conta do momento vivido. Sentimentos afloram de modos incontroláveis, incluindo o amor de Miles pela apaixonante Alasca Young. Entre os seus pontos em comum, a literatura se faz presente de uma forma importante. Alasca Ă© a verdadeira responsável por engrena-lo no caminho do Grande Talvez.

"Imaginar o futuro Ă© uma espĂ©cie de nostalgia (...) VocĂŞ passa a vida toda preso no labirinto, pensando em como vocĂŞ escapará um dia, e o quĂŁo maravilhoso será, e pensar no futuro mantĂŞm vocĂŞ inteiro, mas vocĂŞ nunca fará nada disso. De uma hora pra outra tudo muda, se transforma, e vocĂŞ acabou de usar o futuro fugindo do presente." - Alasca Young    

 " O Ăşnico caminho para sair do labirinto de sofrimento Ă© perdoando." 
Alasca > Hazel. Alasca Young by Radiophonia

ApĂłs um longo perĂ­odo absorvendo a histĂłria do livro (quase seis meses), decidi (tentar) colocar em palavras o que senti ao lĂŞ-lo. Se ler com olhos apenas para o romance adolescente e o cĂ­rculo de amizade em questĂŁo, provavelmente vocĂŞ nĂŁo aproveitará todo o potencial que o livro oferece. Sua beleza está nas entrelinhas, nos mĂ­nimos detalhes que podem facilmente passar despercebidos - assim como todos os livros do John Green que li atĂ© o momento: a beleza da sutileza. 
Por Ăşltimo, digo que este livro tem um plotwist emocionalmente carregado que traz significados e uma beleza espetacular.  

O Iluminado sem dĂşvidas Ă© um dos melhores – talvez o melhor – livro do escritor Stephen King. Uma trama intrĂ­nseca, personagens profundos e, como a cereja do bolo, fantasmas. Escrito em 1977 este livro Ă© o responsável por firmar a carreira de King como escritor devido ao seu estrondoso sucesso. O nome da obra foi inspirada na mĂşsica Instant Karma do cantor John Lennon, precisamente no trecho onde a letra diz: “We all shine on...”. O escritor, inicialmente, colocaria o nome do livro apenas de The Shine, contudo, “shine” era uma gĂ­ria pejorativa para negros. Mas, obviamente, apenas esses detalhes nĂŁo sĂŁo suficientes para eternizar uma obra. EntĂŁo, o que este livro tem de tĂŁo especial vocĂŞ descobrirá nos parágrafos seguintes.
Esta obra Ă©, provavelmente, a maior histĂłria sobre fantasmas que vocĂŞ poderá ler. Considero, ao lado de A Casa Infernal, os expoentes máximos do gĂŞnero, contudo, há grandes diferenças entre elas. O Iluminado nĂŁo Ă© apenas uma histĂłria repleta de sustos e situações aterrorizantes (nĂŁo que A Casa Infernal seja apenas isso), vai alĂ©m, penetrando na mente humana, explorando nossas fraquezas e qualidades. Se vocĂŞ já leu algum livro do King, sabe que o “sobrenatural”, o “desconhecido”, de suas obras servem apenas como um plano de fundo para o que ele realmente quer nos mostrar: Monstros sĂŁo reais e fantasmas sĂŁo reais tambĂ©m. Vivem dentro de nĂłs e, Ă s vezes, vencem.
. “Danny Torrance nĂŁo Ă© um menino comum. É capaz de ouvir pensamentos e transportar-se no tempo. Danny Ă© iluminado. Será uma maldição ou uma bĂŞnção? A resposta pode estar guardada na imponĂŞncia assustadora do hotel Overlook.
 Em O Iluminado, quando Jack Torrance consegue o emprego de zelador no velho hotel, todos os problemas da famĂ­lia parecem estar solucionados. NĂŁo mais o desemprego e as noites de bebedeiras. NĂŁo mais o sofrimento da esposa, Wendy. Tranquilidade e ar puro para o pequeno Danny livrar-se das convulsões que assustam a famĂ­lia. SĂł que o Overlook nĂŁo Ă© um hotel comum. O tempo esqueceu-se de enterrar velhos Ăłdios e de cicatrizar antigas feridas, e espĂ­ritos malignos ainda residem nos corredores. O hotel Ă© uma chaga aberta de ressentimento e desejo de vingança. É uma sentença de morte. E somente os poderes de Danny podem fazer frente Ă  disseminação do mal.”


A narrativa utilizada por King mostra sua habilidade em nos transportar para dentro da histĂłria. Utilizando os point of views (pontos de visĂŁo), ele nos permite acompanhar nĂŁo somente as ações, mas tambĂ©m os pensamentos dos personagens. Isso auxilia muito no entendimento de suas atitudes. O demasiado uso de “parĂŞnteses” e “itálico” aqui nĂŁo parece algo forçado, ao contrário, Ă© necessário e excelentemente bem utilizado. King nos deixa entre os personagens. É como se pudĂ©ssemos interagir com eles. O emocional construĂ­do nos personagens Ă© exemplar - e tanto quanto pessoal. King impregna os protagonistas com problemas existenciais e morais, problemas estes que podemos encontrar e nĂłs mesmos. Esse Ă© uma das verdadeiras façanhas, nĂŁo sĂł dessa obra, mas sim da genialidade de King.
O plot central do livro aborda uma famĂ­lia que esteve em ruĂ­nas e agora busca se reconstruir e almejam um recomeço. Jack Torrance Ă© um ex alcoĂłlatra, cujo vĂ­cio sĂł lhe trouxera infortĂşnios e desgraças Ă  sua vida. Wendy, por sua vez, Ă© uma bela mulher de gostos simples que, talvez, nĂŁo tenha tido sorte em seu casamento. O filho do casal, Danny, Ă© um garotinho de quatro anos, dĂłcil e meigo, mas que possuĂ­ habilidades nada comuns. Em busca do tĂŁo esperado “recomeço”, Jack aceita trabalhar de zelador no hotel Overlook durante todo o inverno. Este seria o momento para famĂ­lia se reaproximar e tambĂ©m para ele concluir a peça teatral que está escrevendo. Nada poderia dar errado. Ele estava livre do vĂ­cio. Wendy buscava esquecer o passado. Eles nĂŁo contavam que o Overlook era capaz de aflorar os piores sentimentos em seus residentes.
Ao melhor estilo Show, don’t tell (mostre, nĂŁo conte), presenciamos os acontecimentos. Sentimos raiva. RepĂşdio. Terror. Medo. É conhecendo os personagens, se aprofundando em seus pensamentos, que podemos refletir sobre quĂŁo maus e egoĂ­stas podemos ser. Sobre quĂŁo falha nossa humanidade Ă©. Um livro essencial.