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Legado das Palavras: terror

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Ir ao cinema e surpreender-se com a história de um filme é muito prazeroso. A obra sequer precisa ser memorável ou a coisa mais empolgante da década, basta trabalhar bem o que tem em mãos e entregar ao espectador algum tempo de imersão na história contada. Boneco do Mal (The Boy), em síntese, é exatamente um desses filmes.
Dirigido por William Brent Bell (Filha do Mal e Stay Alive) e estrelado por Lauren Cohan (a Megan de The Walking Dead), Boneco do Mal, em um primeiro olhar, pode parecer claramente uma simples cópia de Annabelle. Afinal, é um filme de terror com um boneco. E em até certo ponto, a trama trabalha para que essa imagem seja mantida. O que se mostra uma jogada inteligente, pois assim o efeito de seu grande plotwist é potencializado.


Estampado, na capa de O Vilarejo, novo livro de Raphael Montes, a declaração da atriz Fernanda Torres diz: “Raphael cria uma seleção de histĂłrias macabras digna dos melhores contos dos IrmĂŁos Grimm, sem deixar nada a dever a Stephen King.” Obviamente, fiquei contente por ver um autor nacional comparado ao famigerado King. Ainda que nĂŁo tivesse abraçado a causa, essas palavras me venderam o livro, e eu enfim pude ler algo do Montes, um autor em ascensĂŁo cujo nome já li bastante pela internet.
Ao contrário da declaração de capa, o livro deve algo para alcançar a melhor fase de Stephen King, sim. Por outro lado, bate de frente com algumas das obras do referido autor. No entanto, isso nĂŁo diz nada sobre a qualidade de O Vilarejo. Comparar autores Ă© sempre uma grande bobagem, e que acaba gerando bastante discussĂŁo — mas vende o livro (vendeu para mim).
Em relação aos contos que são apresentados, é um livro excelente. Terror, suspense, agonia, sangue e violência muito bem dosados e conduzidos pelo autor. Quando digo dosado, não quero dizer para menos. Não. As histórias despertaram em mim pura repulsa e estupefação, ante dos fatos narrados.
Baseado na teoria de Peter Binsfeld, padre e demonologista, lançada  em 1589, que cada pecado capital Ă© interligado a um demĂ´nio, Montes encontrou aĂ­ o guiĂŁo para a construção do livro. Cada uma das sete histĂłrias apresentadas representa um demĂ´nio/pecado capital. Elas sĂŁo interligadas pelo vilarejo e seus personagens, o que o torna mais que um livro de contos, dando para a obra a alcunha de fix up, caso tambĂ©m do King Edgar Hotel. 
No centro da histĂłria, tal vilarejo acaba isolado do restante do mundo, no vale onde Ă© situado, apĂłs o rebento de uma guerra civil no paĂ­s e a intempĂ©rie da neve. Ali os personagens passam fome e algumas outras dificuldades excruciantes, trazendo a tona aspectos brutais e monstruosos da psique humana.
Avaliando de forma geral, gostei bastante do livro. Mas tambĂ©m apreciei mais umas histĂłrias do que outras. Destaco aqui a primeira e a Ăşltima. O inĂ­cio, dado pelo prefácio (vou chegar nele), e seguido pelo conto Banquete Para Anatole, mostram o que vocĂŞ enfrentará nas prĂłximas páginas. É de revirar o estĂ´mago. O Ăşltimo, Um Homem de Muitos Nomes¸ trouxe-me, o que atĂ© entĂŁo nĂŁo havia tido na leitura, aquele momento em que parei e pensei meus sinceros parabĂ©ns, Montes. Outros dois trechos que me fizeram ter esse pensamento foram o prefácio e o posfácio. Eles sĂŁo as cerejas do bolo. DĂŁo o toque de genialidade do livro.
Completando um trabalho interessante, e até mesmo com sua singularidade na literatura nacional, há também as ilustrações produzidas por Marcelo Damm. Impecáveis e perturbadoras, na exata proporção dos contos.

O Vilarejo foi lançado nesse ano de 2015, pela Suma das Letras. A mesma casa de Stephen King. Melhor que comparar se de fato as histĂłrias de Montes devem ou nĂŁo algo em relação Ă s do King, Ă© pode ler um trabalho bonito como esse, e sentir que o terror nacional está bem representado. É uma obra curta e de leitura rápida. Como AndrĂ© Vianco disse: “...Ă© um livro para ler numa sentada sĂł...”. Concordo. O ritmo da narrativa flui e praticamente te obriga a chegar ao recompensador final. 
Esse foi o primeiro livro de Raphael Montes lido por mim. Certamente será o que indicarei, quando me perguntarem algo sobre o autor. NĂŁo Ă© sua estreia, mas o apresenta bem ao pĂşblico. Agora, com licença, pois vou atrás dos demais livros de Raphael Montes.  


Ontem (30/05), na Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, em SĂŁo Paulo, aconteceu o Livros Em Pauta - congresso nacional de literatura, RPG, quadrinhos e outras mĂ­dias nerds. Sim, Ă© aquele evento bacana sobre o universo literário e editorial, repleto de palestras bacanas e informativas. 
Comecei a participar do evento na terceira edição, no ano de 2013, também marquei presença em 2014, e, claro, não deixaria que comparecer nesta quinta edição. Além de tudo já citado, o Livros em Pauta, é onde também acontece os lançamentos das coletâneas literárias de contos da Andross Editora.




Depois dos meus dois primeiros contos, desta vez decidi investir um pouco mais e participar de trĂŞs, das oito antologias organizadas pela editora. O meu conto O CĂ­rculo de Fogo Ainda Arde em NĂłs (nome inspirado na canção Ring of Fire, do Johnny Cash), Ă© um dos quarenta e oito que integram o livro De Repente, NĂłs – Contos de Amor. O livro possui 304 páginas e foi organizado pelo tambĂ©m escritor, Leandro Schulai, autor da sĂ©rie de livros O Vale dos Anjos.
Há outro conto meu na coletânea Legado de Sangue – Contos de Suspense e de Terror. Para quem nĂŁo sabe, terror Ă© o gĂŞnero que mais gosto para escrever contos e novelas. O nome da minha histĂłria, presente neste livro, Ă© O SilĂŞncio de Gael. O conto foi levemente inspirado em uma das mais famosas obras do escritor Stephen King – mas para descobrir em qual, vocĂŞ terá que ler. A antologia possui 382 páginas e foi organizada pelo escritor Alfer Medeiros, autor da sĂ©rie FĂşria Lupina e Livraria LimĂ­trofe.



Bem, certo, ainda falta um dos contos publicados. O terceiro chama-se Lágrimas de Loucura, tambĂ©m Ă© de terror, mas está presente no incrĂ­vel projeto intitulado King Edgar Hotel – Onde Medos e Horrores se Revelam. Leia a sinopse:

Você se hospedaria em um antigo hotel onde a camareira não tem braços, o mensageiro não tem olhos e o recepcionista aparenta ter idades distintas dependendo da hora do dia? Você ousaria pernoitar em um lugar cujo regulamento interno é estranhamente diferente de tudo o que você já viu? Muitos mistérios rondam o King Edgar Hotel. Fique à vontade para visitar os 21 andares deste lugar, que é a expiação dos pecados para uns, o inferno para outros e uma lembrança macabra para todos os que por ele passaram.

O KEH, como foi apelidado pelos autores, é um trabalho em máximo esforço conjunto para criar uma lenda na literatura brasileira. Mais que apenas um hotel onde coisas macabras acontecem, mais que um mero personagem, ele é o cerne de todas as histórias presentes no livro. O que tira o caráter de coletânea, transformando-o em um romance sobre o imponente e amedrontador hotel fictício.
Aqui deixo a admiração e empenho do Edson Rossatto, assim como o trabalho admirável dos organizadores, Alfer Medeiros e Lara Luft, além de toda a equipe técnica. O livro possui 528 páginas e conta com uma arte excelente na capa.

Clique nas imagens para ampliá-las

Fora ter o primeiro contato com o livro fisicamente, outro ponto positivo de comparecer nos eventos, Ă© poder conhecer novos autores e leitores, conhecer amigos escritores cuja relação era apenas virtual, e, tambĂ©m, conversar muito sobre literatura. Um dia para colher os frutos, descobrir coisas novas, ouvir experiĂŞncias e ficar por dentro das novidades – e muitas, muitas mesmo, estĂŁo por vir.
Enfim, no final das contas, as horas de viagem, o sono perdido, o cansaço, tudo isso acaba sendo deixado para trás. A recompensa é maior que qualquer uma das adversidades para marcar presença lá. Obrigado mais uma vez a Andross, aos organizadores, ao Edson Rossatto e, claro, aos meus amigos escritores e leitores, que não deixam a roda da literatura deixar de girar.

Abaixo estĂŁo alguns dos registros do evento e nĂŁo deixem de comparecer nos prĂłximos – em Novembro tem outra edição. Cliquem nas fotos para ampliá-las:

Pessoal da Legado de Sangue, De Repente, Nós, King Edgar Hotel e Além das Cruzadas

ThaĂ­s Pampado (King Edgar); Eduardo Sugahara (Legado de Sangue); e eu, ao centro. O outro colega de trás, nĂŁo lembro o nome. :p 

Novamente, com a adição da Letícia, do Legado de Sangue. Reunião dos organizadores e autores.


Da esq. para dir.: E=Hugo Sales, Marcelo Aceti (King Edgar), Davi Paiva (todas antologias) e Isa Bissoli (King Edgar).

As caras do Legado de Sangue: Thiago Guilherme, Hugo Sales, Saulo R. Teixeira e Kayo Pagotto.

Eduardo Sugahara, Hugo Sales, LetĂ­cia Povia e JĂşlia Shammass. (Team Legado de Sangue).

Hugo Sales e a Bia Rodrigues (Viagens de Papel).

Hóspedes do King Edgar Hotel: Maurício R. B. Campos, Marcelo Aceti, Hugo Sales e Márcia Miyasaki.

LĂ­via Fiedler (autora de A GuardiĂŁ de Fogo) e eu.

LetĂ­cia Kiraly, Hugo Sales, o organizador, Alfer Medeiros, e o Eduardo Sugahara.

Mariana Rodrigues e Roberta Greco, nossas ilustres convidadas; Eduardo Sugahara; E as escritoras LĂ­via Fiedler e LetĂ­cia Kiraly.

Hugo Sales e Márcia Miyasaki.

PlĂ­nio Rezende e Eduardo Sugahara; Roberta Greco e Mariana Rodrigues.

Eduardo Sugahara, Thiago Guilherme, Hugo Sales, leitoras e as escritoras de Legado doe Sangue. 


A Lara Luft (de vermelho), o Aceti e eu, misturado com outros autores. 



O Iluminado sem dĂşvidas Ă© um dos melhores – talvez o melhor – livro do escritor Stephen King. Uma trama intrĂ­nseca, personagens profundos e, como a cereja do bolo, fantasmas. Escrito em 1977 este livro Ă© o responsável por firmar a carreira de King como escritor devido ao seu estrondoso sucesso. O nome da obra foi inspirada na mĂşsica Instant Karma do cantor John Lennon, precisamente no trecho onde a letra diz: “We all shine on...”. O escritor, inicialmente, colocaria o nome do livro apenas de The Shine, contudo, “shine” era uma gĂ­ria pejorativa para negros. Mas, obviamente, apenas esses detalhes nĂŁo sĂŁo suficientes para eternizar uma obra. EntĂŁo, o que este livro tem de tĂŁo especial vocĂŞ descobrirá nos parágrafos seguintes.
Esta obra Ă©, provavelmente, a maior histĂłria sobre fantasmas que vocĂŞ poderá ler. Considero, ao lado de A Casa Infernal, os expoentes máximos do gĂŞnero, contudo, há grandes diferenças entre elas. O Iluminado nĂŁo Ă© apenas uma histĂłria repleta de sustos e situações aterrorizantes (nĂŁo que A Casa Infernal seja apenas isso), vai alĂ©m, penetrando na mente humana, explorando nossas fraquezas e qualidades. Se vocĂŞ já leu algum livro do King, sabe que o “sobrenatural”, o “desconhecido”, de suas obras servem apenas como um plano de fundo para o que ele realmente quer nos mostrar: Monstros sĂŁo reais e fantasmas sĂŁo reais tambĂ©m. Vivem dentro de nĂłs e, Ă s vezes, vencem.
. “Danny Torrance nĂŁo Ă© um menino comum. É capaz de ouvir pensamentos e transportar-se no tempo. Danny Ă© iluminado. Será uma maldição ou uma bĂŞnção? A resposta pode estar guardada na imponĂŞncia assustadora do hotel Overlook.
 Em O Iluminado, quando Jack Torrance consegue o emprego de zelador no velho hotel, todos os problemas da famĂ­lia parecem estar solucionados. NĂŁo mais o desemprego e as noites de bebedeiras. NĂŁo mais o sofrimento da esposa, Wendy. Tranquilidade e ar puro para o pequeno Danny livrar-se das convulsões que assustam a famĂ­lia. SĂł que o Overlook nĂŁo Ă© um hotel comum. O tempo esqueceu-se de enterrar velhos Ăłdios e de cicatrizar antigas feridas, e espĂ­ritos malignos ainda residem nos corredores. O hotel Ă© uma chaga aberta de ressentimento e desejo de vingança. É uma sentença de morte. E somente os poderes de Danny podem fazer frente Ă  disseminação do mal.”


A narrativa utilizada por King mostra sua habilidade em nos transportar para dentro da histĂłria. Utilizando os point of views (pontos de visĂŁo), ele nos permite acompanhar nĂŁo somente as ações, mas tambĂ©m os pensamentos dos personagens. Isso auxilia muito no entendimento de suas atitudes. O demasiado uso de “parĂŞnteses” e “itálico” aqui nĂŁo parece algo forçado, ao contrário, Ă© necessário e excelentemente bem utilizado. King nos deixa entre os personagens. É como se pudĂ©ssemos interagir com eles. O emocional construĂ­do nos personagens Ă© exemplar - e tanto quanto pessoal. King impregna os protagonistas com problemas existenciais e morais, problemas estes que podemos encontrar e nĂłs mesmos. Esse Ă© uma das verdadeiras façanhas, nĂŁo sĂł dessa obra, mas sim da genialidade de King.
O plot central do livro aborda uma famĂ­lia que esteve em ruĂ­nas e agora busca se reconstruir e almejam um recomeço. Jack Torrance Ă© um ex alcoĂłlatra, cujo vĂ­cio sĂł lhe trouxera infortĂşnios e desgraças Ă  sua vida. Wendy, por sua vez, Ă© uma bela mulher de gostos simples que, talvez, nĂŁo tenha tido sorte em seu casamento. O filho do casal, Danny, Ă© um garotinho de quatro anos, dĂłcil e meigo, mas que possuĂ­ habilidades nada comuns. Em busca do tĂŁo esperado “recomeço”, Jack aceita trabalhar de zelador no hotel Overlook durante todo o inverno. Este seria o momento para famĂ­lia se reaproximar e tambĂ©m para ele concluir a peça teatral que está escrevendo. Nada poderia dar errado. Ele estava livre do vĂ­cio. Wendy buscava esquecer o passado. Eles nĂŁo contavam que o Overlook era capaz de aflorar os piores sentimentos em seus residentes.
Ao melhor estilo Show, don’t tell (mostre, nĂŁo conte), presenciamos os acontecimentos. Sentimos raiva. RepĂşdio. Terror. Medo. É conhecendo os personagens, se aprofundando em seus pensamentos, que podemos refletir sobre quĂŁo maus e egoĂ­stas podemos ser. Sobre quĂŁo falha nossa humanidade Ă©. Um livro essencial.