A nostalgia é quase
certeira quando se trata de Power
Rangers. Quem cresceu na década de noventa certamente se lembra da febre
gerada pelos defensores da Terra, numa luta incansável contra Rita Repulsa e Lord
Zedd. Inspirado em Tommy, Jason Lee e sua turma, assim como em diversas outras
séries tokusatsus, o escritor brasileiro, Raphael
Draccon, estreando no selo Fantástica,
da editora Rocco, traz até seus
leitores seu mais recente trabalho: Cemitérios
de Dragões – Legado Ranger.
Tamanha foi minha empolgação
com o livro que comprei durante a Bienal
do Livro de São Paulo deste ano. Desde já, ressalto o ótimo trabalho feito
pela Rocco, incluindo a belíssima capa de Cemitérios de Dragões. Raphael
Draccon não decepciona os fãs acostumados com suas temáticas inspiradas
livremente por outras obras. É assim na trilogia Dragões de Éter, cuja inspiração vem dos contos clássicos dos
irmãos Grimm e também com Fios de Prata –
Reconstruindo Sandman, que vocês devem imaginar em qual obra é inspirado.
Contudo, confesso que o
livro me decepcionou um pouco. Como fã, acompanhando a escalada do Draccon,
acredito que esse trabalho ficou abaixo da qualidade vista em Fios de Prata,
que por sua vez é superior a trilogia Dragões de Éter (não comentemos aqui
sobre Espíritos de Gelo). Sua
escrita melhorou ainda mais, entretanto, não posso deixar de destacar o uso
recorrente que ele faz de certos termos que se repetem exaustivamente ao longo
de todo o livro, mesmo problema que encontrei no ótimo livro Nas Montanhas da Loucura, de H. P. Lovecraft.
A história? É o
seguinte:
Um soldado de elite do exército americano desaparecido em uma missão no Afeganistão. Uma africana guerrilheira crescida em meio a conflitos étnicos de Ruanda.Uma garçonete irlandesa praticante de artes marciais mistas. Um hacker brasileiro descendente de orientais. Um dublê francês mestre em Parkour. Cinco realidades distintas. Um fenômeno desconhecido faz cinco pessoas, sem qualquer conexão e espalhadas pelo planeta Terra, acordarem em diferentes regiões de uma realidade devastada por um império de reptilianos e assolada pela escravidão. Os cinco iniciam uma jornada em busca de respostas para sobreviverem no centro de uma guerra envolvendo criaturas fantásticas e demônios dispostos a invocar perigosos seres abissais para servirem a seus propósitos. Porém uma entidade pretende conectar o destino dos cinco humanos e armá-los com uma tecnologia construída à base de metal-vivo, magia e sangue de dragões. Uma tecnologia jamais vista naquela ou em qualquer outra dimensão, capaz de gerar heróis de metal. Batalhas empolgantes, romance e magia.
A história funciona
bem, principalmente com a ótima narrativa em “pontos de visão” dos cinco
personagens. O universo criado é realmente interessante, mas apresenta pouquíssimo
de originalidade e de coisas novas, nesse aspecto, as inspirações atrapalham
bastante a construção do cenário. Tudo o que lemos e descobrimos é algo que já
vimos e estamos revisitando, sob uma nova ótica, ainda que ela nos conduza bem. Vi algumas pessoas comentando que o livro seria uma fanfic de Power Rangers, discordo pelo simples fato de acreditar que vá além de suas inspirações (oras, é uma inspiração. A obra não é situada dentro de um universo conhecido) ganhando contornos autorais, embora essas inspirações estejam muito mais visível aqui que em seus outros livros.
Pulando para os principais vilões do
livro, os antagonistas sádicos e brutais, são desprovidos de qualquer limite para conquistar o
poder. E isso os fazem bons: eles querem apenas o poder e não possuem nada a perder. Quanto aos protagonistas, vamos lá: Derek, um soldado americano. Amber,
uma garçonete irlandesa. Ashanti, a guerrilheira de Ruanda. Daniel, um hacker
brasileiro. E Romain, um dublê francês. Os três primeiros funcionam muito bem,
embora Amber seja um tanto irritante, junto com Derek, ela torna-se mais
aceitável. Ashanti é disparada a melhor personagem, uma mulher de garra e
fibra, que é impossível não ganhar a atenção e cair no gosto do leitor. Se a
ruandesa é tudo isso, em contrapartida temos Daniel e Romain, personagens
irritantes desde suas primeiras aparições. Descolados e impregnados com uma
personalidade nerd, ambos não
funcionam juntos em todo tempo, mesmo que tenham seus ótimos momentos juntos. Piadas
horríveis e uso em demasia de vagas referências pop contribuem bastante para a
desvalorização de tais personagens.
O livro
consegue transmitir algumas boas mensagens, contando com trechos altamente
emotivos. As lutas são empolgantes, com ótimas descrições que ajudam
imensamente na imaginação visual das ações. Os ótimos diálogos sustentam boa
parte da obra, aliados as descobertas dos protagonistas a cerca do mundo onde
se encontram. Realmente gostei muito de saber como eles foram enviados até o
lugar e também fica claro o motivo de serem personagens tão distantes. Já as armaduras que ganharam por completo, desde suas origens até os detalhes narrados, esse é um dos fatores que me levará a ler a continuação, quero ver mais delas em combate. A mescla entre fantasia e ficção científica funciona bem.
Em minha opinião, não é a melhor obra do autor,
mas é uma boa leitura, principalmente pelo fator nostálgico. O final do livro
revela o verdadeiro plano do autor que, claro, não revelarei aqui, mas digo que
estou curioso para ver como Draccon fugirá de clichês.
Se você é fã de
tokusatsus, desenhos como A Caverna do Dragão e afins, é uma boa pedida. Se
você é fã do Draccon, não deixe de ler. Apesar dos problemas que me irritaram
um pouco durante a leitura, a aventura flui bem, talvez seja eu que não tenha
conseguido deixar as inspirações de lado para apreciar mais a leitura de
Cemitérios de Dragões. Raphael Draccon segue como um grande nome da literatura nacional de fantasia. Torço
para que sua carreira decole ainda mais e que ele nos traga muitas outras
obras.
Até a próxima.


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